quarta-feira, julho 27, 2011

O teste


Pedi a Deus que afastasse o cálice
Ele não atendeu.
Pedi a Deus que parasse de testar minha fé
Ele riu.
Jogou o cálice aos meus pés.
Era ouro com prata, lembro bem.
 Brilhava.
Desviei o olhar e o cálice se mexeu.
O cálice do Senhor, meu Deus, estava vivo!
Eu já sabia, mas a surpresa foi o tipo de movimento
O cálice virou um corpo
E o corpo estendeu seus braços
E me abraçou nas pernas
E subiu e a boca do corpo me beijou.
O beijo tinha gosto de vinho tinto
Eu, que havia pedido a Deus para afastar o cálice
Eu, que confundi fé com fidelidade
Eu, que nunca recusei misturar vinho com amor
Eu não resisti e na rua das Oliveiras
Bebi o conteúdo do corpo do cálice e me embriaguei
Como nunca o havia feito.
Naquele momento, Deus, em sua infinita ironia,
Percebeu que a história dos homens sempre se repete.

Fotos de Tana Halú

terça-feira, julho 26, 2011

Instalação 


 

A agonia é uma só! Ninguém veio
No dia que seria o mais estranho.
Ninguém deu atenção aos sinais
Aos pássaros estáticos no ar
Às pichações pedindo “Morte ou Poesia”
Reivindicando “Salvem os poetas albinos
Na quente América do Sul”.
Cinicamente, o que há por aqui é inocência.
Inocentemente, sobra nessa mesa muito cinismo.
A noite chegou; cuidado, pode ser a hora
Se os rivais vierem, salvam-se, talvez, as estrofes da canção.
Se as estrofes saltarem, tomara que
O pára-quedas não abra
E a mulher loira
- professora, disseram as palavras –
Fique só.
E venha
E leia
E ria
E ame como só as rainhas loucas o fazem
E que goze como ninguém nunca o fez.
A agonia é uma só, sozinha
Triste, sem campanha, uma exilada
Como página ímpar sem parceira
Rima presa na cadeia dos sentidos
Igualzinha à mulher loira que ri
E ama como (se fosse)
Da última vez.
Agora ensina
Agora comanda
Agora conta rituais de lua.
Que acontece? Que foi?
São novos tempos e velhos costumes.
Chove, é inverno, alguém derruba
Gelo na roupa e gargalha solitário com suas
Bebidas soltas na madrugada.
Esse alguém ri como se estivesse aqui.
Não é a mulher, lamentavelmente.
Apenas a curiosidade.
Nada? Nada!
Grilos, gritos, grifos e nada
Nem o desrespeito aparece
Nem a solidão dá as caras.
Só, casualmente, a mulher loira
- a professora, dizem –
Ensinando
Determinando
Enrijecendo
Matando o que só quer fugir.
A agonia agora está e se instalou aqui.

segunda-feira, julho 25, 2011

Batalhas


Eu sou de paz e o mundo é de confronto
Eu tenho calma e o tempo é meu encontro
Nas viradas de paz e guerras matutinas
A linha entre hoje e amanhã sempre afina

Fotos minhas, Edgar Borges.

domingo, julho 24, 2011

Crença

 


Ainda sou ingênuo

Ainda a maldade assusta

Ainda creio na honorabilidade

Ainda creio, tanto me custa,   

Na vida da tal verdade.


Desencantando, desencantado

Custo a ver o que estou vendo

Fujo desse circo armado

Do palhaço/monstro horrendo.


Ainda creio, mesmo pouco

Ainda me assusta a maldade

Do são que se finge louco

Para difundir sua falsidade.


Fotos minhas: Edgar Borges

sábado, julho 23, 2011

Carta da derrota


Hoje sou, com muito orgulho, um perdedor.
Amanhã, quem sabe o que serei.
Nem sei se serei.
Desconheço se há algo bom a acontecer
Ignoro a quem pertence o futuro
E se, de fato, o futuro existirá.
Só acredito que hoje sou (aceitando-me, faço-me um bem) um perdedor.
Também sei que hoje, nada sabendo, nada dizendo, perdoado serei.
Acumulo um tanto assim de conhecimento...
As pessoas gostam de quem se finge de coitado uma vez por dia.
Faz bem agradar a todos com falsa humildade.

A coragem de ser perdedor vale um canto sussurrado
Bem no canto esquerdo do peito,
Arrepiando o vento e parando o tempo.
Exibo a cabeça baixa de quem desconhece o horizonte
Minhas ideias estão mais para minhocas que desistem
De cavar pela sua sobrevivência.
Minhocas...o chão é o limite dos perdedores
E se a queda for baixa, a dor é reduzida.
Para evitar dores, melhor voar baixo,
Arrastar-se na lama.
Olhar o pôr-do-sol provoca ilusões.
Desistentes deixam de lado suas ilusões.
O desistente é um forte.
Ele sabe que há consequências ruins pelos seus atos
E, forte, continua insistindo no fracasso.
Se o fracasso é relativo,
A noite pode ser absoluta e a meia-noite reativa.
Perdedores adoram a noite. Ela é boa para esconder-se
Em copos sujos de bebida e mesas de solidão.
A noite antecede os novos dias e suas infinitas possibilidades
Suas novas manchetes de guerra e paz, suas colunas sociais
Suas páginas de desenvolvimento econômico e pessoal.
A noite é o refúgio dos humilhados pelo amor.
A madrugada é o pior momento dos desesperados
Dos que esperam ansiosos por uma nova chance do destino.
Sou um perdedor. Sei bem do que estou falando.

Fotos minhas: Edgar Borges

sexta-feira, julho 22, 2011

Amazônicas cenas

Enquanto águas no norte margeiam a realidade
E espíritos da floresta entornam todas no bar
Há velhos pajés dançando salsa pela manhã
E novos guerreiros numa rave sob o luar

Enquanto o tempo passa amazônico, certeiro
Há tempos temos trem, carro, canoa
E há luas ouvimos cada história nada boa
Do passado sem volta, o futuro que não chega.


Enquanto as lendas passam na televisão
No horário nobre, na hora da fogueira,
Índios velhos cantam, índios velhos riem
Pensam na meia verdade, na mentira inteira

Enquanto águas passam amazônicas lendas
Misturam-se no fogo étnicas contendas.


Fotos minhas, Edgar Borges, e de Zanny Adairalba.



quinta-feira, julho 21, 2011

A lida da palavra




A noite chegou com sua pouca glória
Agora apaga-se a vida
Recomeçam-se as realidades
É tempo de transcrever histórias
De perdurar as efemeridades.
As bancas esperam
Os leitores aguardam
Letras a letras
Com ânsia, com desejo
Gaúcho, nortista, sertanejo
Para enfim, conforme lhes convenha
Remontar o que se viu
Remarcar o que se viveu.
Letra a letra em cada seção
Policial, social, geral.
No parágrafo a mais, a menos,
Na ordem, a lida da palavra, o lide da notícia
Poderes, pavores, belezas, horrores
Há verdade sim. Há verdade?  Há...
Há também isenção, coerção, jabá
Dignidade, ética, compromisso
Veículos necessários
Veículos que desconhecem bom juízo.
Mais um momento chegou
E é tempo de refazer todas as formas
Concatenar idéias, realinhar dogmas
Mexer com a verdade, remexer com o engano
Lutar bravamente pelo furo do ano
Lutar comercialmente pelo anúncio do mês
Agoniadamente fazer a capa da vez.
O dead-line chegou
O prazo expirou
É hora da manchete, é a vez da gráfica
Diagramar, imprimir
Jogar as tintas, distribuir.
Encontrar os leitores
Agradar os anunciantes.
É um novo dia
A terminar como os de antes.


quarta-feira, julho 20, 2011

Expondo fotos pelo Nordeste


Na viagem que fizemos ao Nordeste, eu e os demais integrantes do Coletivo Arteliteratura Caimbé,  para fechar a etapa do projeto Caminhada Arteliteratura apoiada pelo Ministério da Cultura e a Funarte, realizamos também a exposição de fotografias e poemas “Curt@s - histórias e poesias”, com textos meus e fotos de Zanny Adairalba e de meu filho, Edgarzinho Borges Bisneto.
Como muitas vezes só me lembro das coisas culturais que faço quando as revejo no blog, vou aproveitar a função de diário que o mesmo exerce e compartilhar com vocês algumas imagens feitas na cidade de Novo Lino, interior do Alagoas.

Ah, na próxima feira de livros do Sesc Roraima também vamos expô-las, só que desta vez em formato maior.

Se você quiser ler duas das imagens, aqui tem um link e aqui tem outro para postagens nem tão antigas.









Esta não foi exposta, mas aconteceu de ser feita em Novo Lino. Ao fundo, o canavial.

quinta-feira, julho 14, 2011

As leituras do mês


Julho foi, até agora, interessante em termos de leitura.

Li

1.    Caóticos de uma mulher crônica, de  Tati  Cavalcanti, Editora Novitas (Crônicas);
2.    A Orelha de Van Gogh, de Moacyr Scliar, editora Companhia das Letras (Contos);

 
3.    Mínimos, múltiplos, comuns, de João Gilberto Noll, da W11 Editores (microcontos) ; e
4.    Pico na veia, de Dalton Trevisan, editora Record (contos e crônicas).
 
Além deles, me deliciei com o número 12 da HQ A sombra do Batman e a 79 de Wolverine. Também li a edição 1.331 do Suplemento Literário , editado pelo Governo de Minas Gerais.

Agora vou verificar o que tem no Coisas Frágeis 2, de Neil Gaiman,  Conrad Editora, e na revista literária Coyote, edição 22.

Enquanto meu livro não sai e minha coluna não volta ao normal para poder escrever mais no computador e passar a limpo o que tenho produzido a mão e caneta, vou lendo o que der para conhecer o estilo dos outros.

E olhando essa lista, acho que só neste mês já superei a media anual de leitura do brasileiro...

quinta-feira, julho 07, 2011

sexta-feira, julho 01, 2011

No jornal Folha de Boa Vista: Projeto distribui livros e faz contação de histórias para crianças

Olha a matéria publicada no jornal Folha de Boa Vista nesta quinta-feira, 30 de junho, sobre a Caminhada Arteliteratura:
 
 
 
 30/06/2011 16h09

Projeto distribui livros e faz contação de histórias para crianças


   

Foto:  Divulgação
Em Palmares , Pernambuco, foram visitadas seis escolas, realizadas nove rodas de leitura, junto com contação de histórias


NEIDIANA OLIVEIRA
neidiana@folhabv.com.br


Transformar a leitura em uma ferramenta de fortalecimento da cidadania e formar neo-leitores estão entre os objetivos do projeto Caminhada Arteliteratura, que durante esse ano realizou visitas às comunidades indígenas de Roraima e os municípios de Palmares (PE) e Novo Lino (AL). O projeto iniciou em janeiro deste ano e foi concluído neste mês com todas as metas alcançadas.


A iniciativa partiu de um projeto idealizado e executado pelo grupo Zanny Adairalba, Tana Halú e Heloisa Brito, coordenado por Edgar Borges. O projeto foi contemplado no processo seletivo da Bolsa de Circulação Literária da Fundação Nacional de Artes (Funarte).


O coordenador comentou que a trajetória se estendeu de janeiro a maio, quando foram feitas duas visitas em quatro comunidades indígenas: Campo Alegre, Vista Alegre, Boca da Mata e Sorocaima II.


Nesse período, foi feita a coleta de 1.110 livros de contos, prosas, crônicas e poesias, 78 revistas e 28 gibis, dos quais foram deixados cerca de 200 em cada local visitado e também em uma localidade que não estava prevista no projeto, que foi em Sorocaima I. 


“Com isso, ajudamos a implantar cinco bibliotecas comunitárias. Além disso, foram repassados para a biblioteca do Museu Integrado de Roraima cerca de 246 livros técnicos e didáticos arrecadados durante a ação complementar”, explicou.


Durante as visitas, a equipe realizou rodas de leitura, contação de histórias, oficinas, exposições de foto poemas, micronarrativas, sessão de artes plásticas, com trabalhos feitos com massa de modelar e também contavam com a presença de escritores roraimenses, o que incentivava as crianças a terem um interesse na leitura e na literatura. 


Borges destacou que, conforme o previsto no projeto, o grupo deveria realizar uma atividade fora da região Norte. “Foi então que, no começo de junho, viajamos para o Nordeste, especificamente para o Município de Palmares, em Pernambuco, e depois fomos convidados pelo professor Adalberone André Santiago, de Palmares, para irmos a Novo Lino, em Alagoas”, disse.


Em Novo Lino foi visitada uma escola e realizadas duas rodas de leitura, junto com contação de histórias, proporcionando um resultado de 150 pessoas atingidas pelo Caminhada Arteliteratura. “Foi surpreendente, já que esta localidade não estava prevista no projeto”, disse o coordenador.


A intenção da equipe na segunda etapa em Pernambuco era fazer seis rodas de leitura, porém foram realizadas onze. “Na primeira visita, atingimos 228 pessoas, na segunda foram 223 e fora da região Norte foram 446 mais 150, contabilizando 1.047 atendimentos registrados.  “Estava previsto inicialmente atendermos 500 pessoas, então ultrapassamos a meta em mais de 100%”, enfatizou.


Borges comentou que, após cada visita, foi produzido um relatório com os resultados e com as com as fichas sócio-cultural preenchidas pelos participantes para entregar à Funarte.  


“Entre os resultados também podemos destacar a divulgação dos escritores roraimenses. Assim queremos contribuir para o enriquecimento do acervo literário dos autores regionais e incentivar as cadeias criativa, mediadora e produtiva do livro, leitura e literatura”, frisou.


Para Borges, o que pode ser destacado de toda essa aventura literária é a troca de experiências e conhecimentos entre crianças, adolescentes e adeptos a livros. “Era muito bom quando ouvimos os participantes falar se  nós iríamos voltar, pois conseguíamos perceber a valorização do nosso trabalho”, lembrou.


Quem estiver interessado em obter mais informações sobre a Caminhada Arteliteratura e a biblioteca comunitária pode acessar o endereço eletrônico: www.caminhadaarteliteratura.blogspot.com. 


FUNARTE - O processo seletivo da Bolsa de Circulação Literária foi aberto pela Fundação Nacional de Artes (Funarte) a pessoas de todas as regiões brasileiras que desejam desenvolver atividades de fomento à área literária, como oficinas, cursos, palestras e programas de contação de histórias.


O projeto Caminhada Arteliteratura foi um dos contemplados entre os 50 projetos dos municípios atendidos pelo programa Territórios da Cidadania, do Governo Federal.


A ação foi realizada na Terra Indígena Raposa Serra do Sol e São Marcos e fora da região Norte, no Município de Palmares (PE), integrante do Território da Cidadania Mata Sul.