segunda-feira, agosto 30, 2004

Juliana, a rainha da folia

Como é feito todos os anos, o prefeito da emergente cidade de Santa Rita dos Aparecidos, reeleito e feliz, planeja um carnaval que traga muitas divisas para o município, levantando as economias dos empresários e alegrando os foliões, que esquecem de todas as dívidas, provações, incompetências, filhos, esposas e maridos durante alguns bons e mundanos dias. A primeira providência é escolher um rei e uma rainha. Afinal, assim reza a tradição: um gordo alegre e uma morena faceira e com samba no pé devem receber a chave da cidade.
Nas escolas de samba, agitação é palavra de ordem. Os presidentes encomendam aos olheiros que caprichem no serviço e lhes tragam a mais bela das sambistas, seja ela escolhida entre as meninas da própria escola, seja entre as freqüentadoras dos clubes de pagode. Na escola Avenida da Central, a procura é frenética, afinal está em jogo não apenas a honra conquistada por uma das suas componentes de reinar na folia, mas o bicampeonato carnavalesco.
Cinco morenas são examinadas ao som da bateria. Juliana, cabelos cacheados, lábios carnudos, pernas torneadas, sorriso fácil e cintura-de-mola é a escolhida. Tem pela frente um desafio, pois as outras escolas não deixaram por menos nas indicações.
No dia da escolha, muito nervosismo. Juliana arrebata o título de rainha sem muitos problemas. Samba com alegria e desperta a paixão de vários espectadores, que oscilam entre os galanteios rudes (gostosa, tu é a mulher que mamãe sonhou para mim), os mais ou menos (nossa, namora comigo e te dou minha vida) e os metidos a poeta (tua beleza me desnorteia, linda mulher que flutua enquanto dança).
Mas Juliana não dá bola a ninguém. Ela já tem o seu homem. Isso até descobrir que ele a estava traindo com a rainha da bateria. Aí, enraivecida, promete vingança no meio da folia. Sorte do irmão do rei Momo, um repórter fotográfico escalado pela organização para acompanhá-lhos em todas as festas. Haviam se conhecido durante a visita que todas as candidatas fizeram ao prefeito. Simpatizaram logo de cara. Na primeira noite de carnaval, fuga dupla para uma praia do rio Piná. Vinho, queijo, beijos... Assim correu o mundo até a quarta-feira de cinzas, quando as obrigações do malvado mundo real separaram os novos amantes e cada um voltou a seus respectivos amores. Do velho carnaval da reeleição, sobraram apenas lembranças, uma fotografia e silêncio sobre o romance. Mas eles, lá no fundo, esperam ansiosos pela micareta, onde velhas paixões costumam esquecer tudo durante mundanas horas.

(Publicado originalmente no carnaval de 2001, no extinto semanário A Tribuna do Estado de Roraima)

quinta-feira, agosto 26, 2004

Investigación de primer mundo

- ¡Manos p´árriba!
- Que pasó?
- ¡Manos p´arriba, péguense a la pared! ¡Documentos!
- Aquí están, pero que pasa, señor policía?
- De quien es aquel carro?
- Que carro?
- Aquel que está parao en la esquina.
- No sabemos.
- Como no sabem? No es de ustedes? Ustedes no estaban en la esquina?
- Si, pero ni lo habíamos visto.
- Dónde tu vives?
- En la Vuelta Del Diablo...
- Nunca te vi por aqui. Tu vives aquí mismo?
- Si.
- Y tu? Vives aquí también?
- Si.
- Bueno, súbanse los tres al carro ahora.
- Pero por qué?
- Coño, súbanse. ¡Los estoy mandando!
- Pero por qué?
- ¡Que te subas,chico!

(Os policiais apontam suas armas enquanto todos entram no camburão. Seis quadras depois, na delegacia, o comandante fala com eles)

- O sea, que ninguno de ustedes es el dueño del carro?
- No, señor, nosotros no tenemos carro.
- Y que hacían paraos en la esquina de la plaza?
- Hablando...
- Y qué, no trabajan?
- Somos estudiantes.
- Ah, OK, estudiantes.
- Y por qué nos trajeron?
- Es que un tipo amenazó de muerte a un señor y estaba vestio como ustedes, con una camisa azul, una gorra como la tuya y un blue jeans.
- Pero no somos nosotros, señor.
- Bueno, es que ustedes eran sospechosos. Y además, estaban paraos cerca del carro.

(entram vários policiais com um homem algemado)

- Lo cogimos, comandante. Lo encontramos cerca de la plaza.
- Bueno, muchachos, ahora que probamos que ustedes no amenazaron a nadie, pueden irse. Compórtense bien, OK? Y no se pongan así. Ustedes saben que ese es el trabajo de la policía. Váyanse tranquilos.

terça-feira, agosto 24, 2004

Um coral formado por120 crianças de 6 a 14 anos apresentando-se no parlatório da Universidade Federal de Roraima durante o V Painel Internacional de Regência Coral é algo comum, esperado até, tendo em vista o tipo de evento.
Mas o coral, bem afinado e levemente nervoso na que foi sua primeira apresentação, é especial. Para começar, apresenta suas músicas em dois idiomas. Os ensaios, apenas nos finais de semana, são feitos nas aldeias indígenas Tabalascada, Malacacheta e Canauanim, a mais de 20 quilômetros de asfalto, piçarra e muita lama ou poeira, de acordo com a época do ano, de Boa Vista.
Além disso, o regente do coral e seus alunos têm em comum algo mais do que o gosto pela música. Todos são wapixana, uma das etnias historicamente vítimas do que parte da sociedade roraimense costuma chamar de convivência harmoniosa entre índios e não-índios (Por convivência harmoniosa, entenda-se uma relação de subalternidade na qual a força do branco predomina).
Cristino Pereira dos Santos é o responsável pelo coral, nascido a partir de uma ação autônoma que ele chamou de Projeto Canto Indígena. Há seis meses, todos os sábados ele deixa Boa Vista para ir ao município do Cantá e ensinar música às crianças. O professor conta que a ansiedade de alguns alunos é tanta que vários começam a rondar o salão de aula uma hora antes das lições começarem, às 8h.
Os frutos começam a ser colhidos. Na estréia, o coral apresentou canções próprias e cantos tradicionais na língua materna e em português. Vestidos com saias de palha, com acompanhamento de um violão e de um violino, o coral já tem sua solista, uma chimeba (menina) que se apresentou apenas com a palha de buriti e tinta de urucum cobrindo seu corpo.
A cantoria em língua nativa, além da preservação de sua cultura, representa um trabalho de valorização da auto-estima dos indígenas. Quando algumas famílias migram para as áreas urbanas, os mais novos costumam negligenciar a herança que carregam em troca de uma integração mais rápida com a nova sociedade da qual fazem parte.
Até o final de ano, conta Cristino, o projeto deve ampliar seu alcance, consolidando o coral, um grupo de violonistas e um grupo de composição musical. Tudo isso tendo como única ajuda oficial 20 litros de gasolina mensais doados pela Funai (Fundação Nacional do Índio).
Segundo o professor, seu trabalho é motivado por ter consciência que "a cultura muda a mentalidade das pessoas e que o governo não dá isso porque assim consegue controlar a gente". Uma platéia formada em parte pelos filhos da própria sociedade que ignora as necessidades dos indígenas, em parte por pessoas sensíveis à causa destes povos, além dos pais das crianças e alunos do louvável projeto de licenciatura Insikiram, mantido pela UFRR, aplaudiu a disposição do professor e seus alunos em demonstrar que 500 anos de sofrimento e exclusão é um tempo insuficiente para acabar com o orgulho de ser índio.


sexta-feira, agosto 20, 2004

13 de fevereiro de um ano qualquer da minha juventude.
Depois de seis dias afastado de computadores, celulares e tudo o que é movido a energia elétrica, retorno do Monte Roraima, a casa de Macunaíma, deus-pai dos índios Pemón e Macuxi, marco da tríplice fronteira entre o Brasil, a Venezuela e a Guiana.
Em Pacaraima, enquanto espero um sanduíche de queijo e um guaraná, meus olhos são atraídos por uma janela multicolorida que brilha e tem pessoas dentro dela. Após cinco segundos, processo a informação: a janela é uma televisão. E eu, que reconheço canais pela marca nos cantos da tela, demoro a reconhecer a logo da Band.
A experiência, muito mais que alguns semestres cursando Antropologia e Sociologia, me ajuda a entender a expressão de medo e fascinação de meus primos índios quando chegam às cidades dos brancos.


quarta-feira, agosto 18, 2004

Da série "escritos para mulheres especiais"

Difícil conquista

Foi olho no olho, primeira impressão
Alucinei, te ofereci a galáxia.
Você riu, balançou a cabeça
Me chamou de exagerado,
Pediu que fosse com calma.

Não te ouvia, fui em frente
Sem desistir, trouxe a Via Láctea.
Você disse "ai, meu Deus,
Lá vens tu de novo" e me
Falou de paz na alma.

Mané paz o quê, juntei num pacote
universo, Via Láctea, a lua, rosas e mil estrelas.
Você fez bico, olhou para o lado,
Explicou: estava ocupada, era quinta-feira
Mandou voltar em ano menos tumultuado.

Na insistência, cabeça-dura, apaixonado
Pedi ajuda ao Papa, ao presidente, ao chefe da polícia.
E você, sem dar atenção aos meus cartazes na rua,
Contando preferir revistas e jornais,
Mandou arrancar a faixa onde escrevi "minha alma é tua."

Cansado, desiludido, mas persistente
Joguei uma última e desesperada carta na mesa
Contratei um carro com alto-falantes
Recitei um poema publicado na seção de variedades.
Preso por desordem, passei dois dias atrás das grades.

Conformado, passei um e-mail
Declarando derrota e retirada total do time de campo,
Reclusão, esquecimento, apesar de toda a dor.
Agora é você quem manda flores, me acossa,
Perturba no trabalho, manda cartas de amor.

E eu aqui, quieto, sem entender nada,
Perguntando se sou louco ou complicado
Se é normal tal situação absurda,
Na qual o apaixonado luta contra sol para conquistá-lo,
Perde a guerra e leva o troféu de primeiro colocado.

segunda-feira, agosto 16, 2004

Cena
Domingo, 12 horas, quarto escuro apesar da janela aberta, a chuva molhando as plantas, vento frio e Come Rain or Come Shine num dueto de B.B. King e Eric Clapton. O que mais pedir?

sexta-feira, agosto 13, 2004

Há dias em que Boa Vista ganha ares de cidade grande. Nessas horas, fica até difícil saber o que fazer. Nesta semana, por exemplo, o Sesc promoveu uma oficina de cinema para professores, adolescentes e crianças. A Universidade Federal de Roraima também fez uma oficina de cinema com exibição de filmes espanhóis.
Na sexta-feira 13, às 19h30, o Sesc promove um Café com Letras com o tema Cinema e Literatura. No mesmo horário, tem exibição e debate sobre o filme Tudo sobre minha mãe, de Pedro Almodóvar, no auditório da UFRR.
Ainda na sexta, rola show no Sesc com o George Farias e Eliakin Rufino, a turma do reggae na floresta. Na Universidade, o DCE realiza a Festa da Calourada, com rock e forró (afinal, estamos no Norte).
Em Boa Vista, a capital mais setentrional, há dias em que tudo acontece ao mesmo tempo. Mas há muitos outros em que a pasmaceira é geral.
Já na Venezuela as coisas não param. Finalmente chegou o 15A, a sigla do 15 de Agosto, data em que as facções governistas (os oficialistas) e a oposição (os esquálidos), ambas alegando defender a democracia, a dignidade e a prosperidade do povo venezuelano, vão se enfrentar (novamente) nas urnas para decidir se Hugo Frias Chávez deixa ou não a presidência.
E eu ouvindo La Oreja de Van Gogh no máximo

terça-feira, agosto 10, 2004

Mais um final de semana

Esvazio mais uma garrafa de cerveja enquanto meus amigos conversam sobre seus filhos e suas amantes. A tarde está quente e a transmissão do rádio diz que o meu time está perdendo novamente. Amanhã será domingo e com certeza amanhecerei de ressaca. Não sei se é pior a resultante da bebida ou a proveniente do convívio com as pessoas que geralmente se misturam nos finais de semana à fumaça do cigarro da casa de bilhar onde me divirto bebendo, fumando e apostando nos cavalos. Gosto de cavalos. Eles pelo menos algumas vezes me trazem lucro. Quando ganho uma aposta, tomo rum. Se a tarde é boa, arrisco um trago de uísque e compro um pouco de carinho. Tudo para esquecer que logo será segunda e o meu maldito trabalho estará lá, a minha espera, como uma onça espreita a presa.

quinta-feira, agosto 05, 2004

Da série "escritos para mulheres especiais"

Um novo quadro

Era um tempo sem estrelas
Havia vento sem perfume
O rio corria baixinho
Que nem criança assustada
A canção não era forte
E a palavra sem sentido
Alegria tinha aos montes
Escondida num carrinho.

Fez-se o sol, nasceu a chuva
O sorriso apareceu
Jogador guardou as cartas
Foi na rua para passear

É um tempo com estrelas
A brisa corre perfumada
E as águas brincam gritando
Que nem criança desbocada.

quarta-feira, agosto 04, 2004

O governador de Roraima daou no mandato, mas continua despachando. Há quem esteja aparentemente preocupado em como ficará a governabilidade do Estado. Há quem diga que já estava na hora do homem sair. Há quem apenas noticie. E há quem pense em começar a gastar por conta, esperando um suposto retorno de Ottomar Pinto e sua família ao poder.

terça-feira, agosto 03, 2004

Notícia policial

Após pedir um prato de sopa de carne com legumes, o contador Januário Pereira, 32, morreu atropelado ontem, enquanto falava ao celular na calçada do restaurante que freqüentava todos os dias.
Segundo amigos, tinha mania de caminhar e esquecer do seu entorno durante as ligações. Deixa mulher, um casal de filhos, uma coleção de 520 times de futebol de botão, romance extraconjugal sem nome ou endereço para correspondência e uma conta de cinco cervejas no boteco da esquina.