terça-feira, dezembro 28, 2004

O fim da viagem


Então, depois de sobreviver a falhas mecânicas e humanas em dois países , percorrer milhares de quilômetros, há uma hora em que a falha deve ser nossa e não dos outros.
Leia mais e saberá do que se trata.
Mas antes, vamos traçar a rota da viagem à Machupicchu, que começou no dia 12 de dezembro de 2004.

Boa Vista (RR) a Manaus (AM): bus
Manaus a Tabatinga (fronteira do Brasil com a Colômbia e o Peru): avião
Tabatinga a Iquitos (Peru): barco rápido
Iquitos a Lima (capital do Peru): bus
Lima a Arequipa: bus
Arequipa, Vale do Colca, Arequipa: bus
Arequipa a Cuzco: bus
Cuzco, Vale Sagrado dos Incas, Cuzco: bus
Cuzco a Puno: bus

Até aqui, havia rodado uns 5.500 km. Após a última postagem, feita em Puno, passei o maior frio de toda a viagem. Puno gelou às 17h, com uma chuva fina que me obrigou a esconder-me no hostal bem cedo. Aproveitei para ler o livro de quadrinhos da Mafalda, ouvir rádio e deixar tudo pronto para o dia 24 de dezembro, quando começaria a viagem de volta ao Brasil.

24 de dezembro, Puno, 8h, em direção a La Paz.

Deixo para trás os ciclotáxis de Puno e embarco no bus com muitos europeus que vão ficar em Copacabana, a única escala da viagem.
Na fronteira do Peru com a Bolívia, troco dólares por bolivianos, dou entrada no país no mesmo dia que vencia minha permissão de 10 dias para estar no Peru (prazo que pedi para que sobrasse tempo e não propositadamente, vale dizer).
Avançamos pelo altiplano, tendo o lago Titicaca como companheiro ao lado esquerdo da estrada e o atravessamos de balsa num estreito.
Descubro tarde que o câmbio do lado boliviano é mais vantajoso (um dólar por oito bolivianos e não 1x7,8 como no Peru).
Em Copacabana, todos pagamos um boliviano de taxa de entrada à cidade. Sem exceção. Adiantamos os relógios em uma hora e recomeçamos a viagem às 13hh30, depois de 60 minutos de descanso.
Há crianças gritando por dinheiro e doces ao longo do caminho boliviano. Invejo um pouco a coragem e disposição de uma britânica, filha de uma filipina com um cretense, que fez o caminho do Inka, trilha que dura vários dias e reproduz o trecho que unia a capital do império inka, Cuzco, a Machupichhu.
Chegamos a La Paz às 17 horas. Procuro pelas ruas cheias de fumaça uma agência para comprar uma passagem de avião. Não quero passar mais quatro dias viajando. Tem um avião sim, para amanhã, me diz a moça da agência. Custa 350 dólares e vai para São Paulo. Outro mais barato? Sim, custa 330 dólares...
Saio para procurar a rodoviária desta poluída cidade que me parece uma Sampa sem ordem no trânsito, mas com muito menos oxigênio. As duas mochilas me cansam e o ar seco irrita minhas narinas, de onde sai catarro com sangue há dias. Na entrada da rodoviária, um boliviano treina um salto de um jeito conhecido. Sim, é capoeira e ele treina sozinho, me conta.
Passagem para Cochabamba somente no ônibus das 21 horas. Meu natal será na estrada. O meu e o de muitas outras pessoas.
É o primeiro natal que passo realmente sozinho, sem amigos ou familiares por perto. Não foi tão ruim, concluirei no outro dia, já em Cochama, como apelidam a cidade.
Saímos da rodoviária às 21 horas, como combinado, mas ficamos parados 80 minutos no subúrbio de Lima. Entram vendedores de chocolates e livros para tentar tirar o lucro da noite. Poucas vendas, apesar da boa oratória.

25 de dezembro, 4h40, Cochabamba

Os vendedores da empresa Expreso San Luiz gritam a toda voz que o próximo bus para Santa Cruz de la Sierra sai às 5h30, por apenas 50 bolivianos. Descubrirei na estrada que a passagem oscilou entre 30 e 50 pratas, dependendo do horário de compra.
O ônibus deixará a estação somente às 6h30, quebrará às 7h na saída de Cochama e o motorista e as duas crianças que o auxiliam nesta viagem de 495 km serão abordados pela polícia em seguida. Os responsáveis enviarão outro ônibus somente às 7h45 para recolher os passageiros e seguir viagem. Ao lado do motorista, um saco de folhas de coca.
Passamos pela serra da região do Chapare, onde o MAS, partido do deputado Evo Morales, liderança indígena boliviana, mantém uma luta para permitir que os agricultores possam continuar cultivando a planta da coca e manter uma tradição milenar. Como dizem no Peru, a coca é do bem, a cocaína, essa sim, é do mal.
Às 11 horas, já nos trópicos, o motorista e seu auxiliar, também um adolescente de não mais de 16 anos, aproveitam a parada de 60 minutos para o almoço e trocam todas as correias do motor.
Às 12h45, ao atravessar a ponte do rio Zapata, um dos pneus traseiros explodirá, sendo substituído por outro tão liso como um CD novo.
Na estrada, construções tomadas pela selva, cidadezinhas, plantações, fazendas, arvores frutíferas como só nos trópicos é possível. Pés de manga atiçam minha fome.
Chegamos vivos a Santa Cruz às 16h30.
Na estação de trem, filas imensas de turistas que vão passar o reveillon em Balneário Camburiu, São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia.
Não há passagem de trem, não há ônibus para Puerto Quijarro, as autoridades me recomendam não comprar as passagens oferecidas pelos cambistas e esperar até o próximo dia, quando talvez haja vagas nos vagões.
Decido arriscar com os cambistas se eles conseguirem me colocar dentro do trem, que sai às 17h30, ou seja, em menos de 20 minutos.
As propostas começam em 100 bolivianos. Outro me oferece uma passagem de janela por 80. Termino comprando pelo preço de balcão (52 bolivianos) e atravesso fácil pela fiscalização de documentos graças ao contato do cambista. Mas o medo sobreviverá até os fiscais do trem marcarem minha poltrona e me desejarem boa viagem.

26 de dezembro, Puerto Quijarro, 14 horas e 340 km e muitos ruídos de trem depois.

Para deixar a Bolívia, é necessário pagar 10 bolivianos. As moedas que seriam para a coleção acabam ficando na imigração.
Em Corumbá, a primeira grande marcada da viagem: esqueço de perguntar que horas são e quando percebo, meu ônibus já partiu há 30 minutos. O fuso agora está uma hora adiante do horário boliviano. Minhas atuais 14h são na verdade as 15h deste pedaço do Brasil
Ônibus, agora, só às 17h30, com previsão de chegada em Campo Grande à meia-noite.
Na estrada, uma boliviana fica assombrada quando digo que comprei passagens de trens na mão de cambistas. Segundo me conta, a venda oficial somente recomeçaria no dia 3 de setembro. Até lá, estavam todos os trens lotados.

20 minutos de 27 de dezembro, Campo Grande.

Como eu, há muitas pessoas querendo passagens para Santa Catarina.
Para ficar perto de Florianópolis, compro uma para Curitiba. Previsão de saída: 6h10 minutos. Não vale a pena dormir por cinco horas. Melhor ficar acordado e fazer a barba para tirar a barba de índio depois de 13 dias de estrada.
Deixamos Campo Grande às 8h. Por sorte (e pelos quase R$ 150 reais pagos) é um bus cama, o que garante o conforto.
Atravessamos plantações de soja e de milho, principalmente, e passamos por Londrina e outras cidades. Ao meu lado, um casal parece estar em lua-de-mel e disposto a fazer amor dentro do veículo.

30 minutos de 28 de dezembro, Curitiba, 1.000 km depois.

Curita está fria, apesar de ser verão por estas bandas.
Próximo ônibus para Floripa? À 1h30, com três vagas ainda.

Floripa, pela manhã

Chego em Florianópolis às 6 horas da matina e como bom filho único ligo para dar notícias e tranqüilizar minha mãe.
Totalmente desorientado pelos fusos horários, esqueço que em Boa Vista, cidade brasileira no hemisfério norte, ainda são 4 da matina. Melhor ligar de madrugada que ouvir que nunca dei notícias, acredito.
Agora, é descansar, pensar na volta para BV, desta vez em avião, e escrever minha tese de mestrado em transportes coletivos públicos.

quinta-feira, dezembro 23, 2004

Confusao entre Lima e La Paz

De Puno, a 3.827 msnm, margem do lago Titicaca

Depois de um dia inteiro em Machupicchu, conhecendo a cidade perdida e se metendo a conquistador de Waynapicchu, templo que fica no morro que sempre se ve nas clássicas fotos de MP (duas horas para subir e descer em ritmo de branco, 15 minutos em ritmo inka. E eu fiz em 1h45 em ritmo de índio que já subiu o Monte Roraima mas nao teve tanta acelarada de batimentos cardíacos), pegar o trem de volta para Cusco e perceber, depois de falar com alguns brazucas e peruanos, que as agencias deram o golpe em mais de 100 (bota mais) turistas enviando-nos para Ollantoytambo para pegar o trem (lucro médio de 50 dólares em cada um), peguei o bus para Puno.
Chegando aqui, cansado e com sono, troquei Lima por La Paz e comprei uma passagem de volta para Arequipa sem entender como a rota mais curta e barata poderia ser essa. Mas tudo bem...
Gracas ao guia turístico das ragazzas Paola e Fede, no qual checamos duas vezes a rota, decidi voltar para trocar a passagem por outra para Copacabana. Na rodoviária percebi como estava prestes a voltar ao ponto inicial da partida. Discute aqui, discute lá, deixa uns soles na mao do vendedor, compra outra passagem para La Paz e fica na boa. La Paz por Lima...acho que foi a letra L...

Nei, vc quer saber do Lago Titicaca? É água sem fim, com um horizonte cortado pelo totora, palha com a qual os Uros fazem as suas casas. A água é fria (9 graus em média)e é fascinante andar sobre as ilhas flutuantes.

MP? É de se parar e pensar o que levou os inkas a conquistarem uma montanha daquele tamanho, cujo acesso em microonibus demora 25 minutos por uma estrada de 8km ou uma hora pela trilha que nasce no povoado no pé da montanha, Águas Calientes.

Tocar nas pedras talhadas e lisas, perceber que eles moldaram uma montanha ao seu gosto e fizeram construcoes que sobrevivem até hoje, resistindo inclusive aos terremotos em Cusco, é a mágia do lugar. Entrar nos quartos,olhar o vale em frente e sentir o vento frio dos Andes no rosto, isso é fantástico.

Lá, encontrei dois catarinenses de Bombinhas (acho que o Orib já esteve lá mergulhando) que estao há um bom tempo excursionando pela América do Sul e já haviam estada em Boa Vista. Fotos e textos em wwww.expedicaotoriba.com.br, com o Raul e a Valquíria.

Agora, rumo a La Paz, na Bolívia.

terça-feira, dezembro 21, 2004

De novo, um imprevisto

Aí vc compra a viagem para MP numa agência, confiado que tudo vai rolar no esquema. Acorda 5 horas da madrugada fria de Cusco para estar na frente do hostal às 5h30. E o que acontece? Nada...
8h50, na agência, pronto para reclamar na Policia Turística do Perú caso nao fazam nada, fica a viagem adiada para o outro dia. Ainda bem que a hospedagem estava paga. O que resta é aproveitar para fazer um tour pelo Vale Sagrado dos Inkas e visitar seus templos , olhar seus relógios solares, a cruz inka, suas construcoes no pés de montanhas e se perguntar como os caras conseguiram fazer tudo isso há mais de 500 anos e como os espanhóis destruiram tudo para erguer sobre as bases das construcoes seus templos e casas.
O bom do dia é que o passeio foi compartido com as italianas Paola e Federica e com os chilenos Lisé e Osmar, conhecidos do city tour do dia anterior.
Na volta, a confirmacao da ida a MP e a saída para Puno, às margens do Titicaca na noite de quarta.
Enquanto isso, percebe-se que ser bilíngüe por aqui é o mínimo que se poder ser. Os turistas falam, em sua maioria, três linguas (a mae, o inglês e o espanhol, mas há quem fale até cinco).
Os guias, bom, deles nem se fala. Até os indígenas ambulantes falam ou arranham em três idiomas. A deles, o espanhol e o inglês.
E os brancos que os conquistaram é que eram espertos.


segunda-feira, dezembro 20, 2004

Cuzco, a um passo (e 95 dólares) de Machu-Picchu


A viagem ao Vale do Colca, onde esta o canyon mais profundo do mundo foi legal. Mas ver 1.200 metros de pedras, peruanas vendendo artesanado, lhamas, alpacas, conjuntos bolivianos cantando musica em idiomas indígenas, fazer caminhada à margem de um desfiladeiro, ver ao longe vulcoes e passar frio enche.
Cusco é pura história. É andar no meio da cultura inka (aqui se escreve assim) e espanhola.
Também é sentir que a indústria do turismo peruana nao perdoa. Te cobram tarifas para embarcar nos avioes e nos onibus. E nem pense em ter pelo menos o acesso ao banheiro garantido. Pague por isso ou fique na vontade.
Por isso, todo mundo entra logo no esquema de mochileiro. A pechincha é uma obrigacao.
Somente assim para encontrar um espanhol há 45 dias rodando no Perú ou uma francesinha que vai para 3 meses e meio rodando pelo Chile, Bolivia e Perú. Tudo na base do que for mais barato.
Pegar aviao é doideira aqui. Os precos quintuplicam e vc ainda tem que pagar uma taxa para a Infraero local. Por isso, os gringos viajam quase sempre de bus.
Bem, nesta terca MP e depois Puno, para ver as ilhas artificiais do Lago Titicaca.
Depois, bom, depois...Acho que La Paz. Um dia chego em Corumbá. Se a grana der.

Update

Entao...a galera cobra em dólares, mas depois que se passeia por construcoes inkas e se escuta a história de como fizeram seus templos, se toca em pedras talhadas há séculos e se olham altares onde eram feitos sacrifícios humanos, a inversao em cultura geral vale a pena.
Há também o prazer de encontrar os viajantes que se inspiraram em filmes como Diários da Motocicleta, como as italianas Paula e Frederica, que vao rodar pedacos do Perú e Bolívia só porque assistiram o filme.
E por hoje, depois de passear nas ruinas de Saqsaywama,, Q'enqo, Puka Pukara e Tambomachay, é bom lembrar de uma passagem de Diários: Tudo foi feito pelos inkas e destruído pelos espanhois, os incapazes.


sexta-feira, dezembro 17, 2004

Passando perrengue no Perú

De Arequipa, a 1003 km de Lima

Bem, somando Boa Vista - Manaus - Tabatinga - Iquitos - Lima - Arequipa, acho que já rodei uns 4 mil km em uma semana, via terra, ar e água.

Até agora já passei perrengue no Rio Amazonas, com o barco de motor ferrado, e no trecho para Arequipa, na beira do oceano Pacífico, quando o bus que faria a viagem em 14 horas (saída as 17h de Lima) teve de parar na rodovia Panamericana Sur por conta de uns desmoranamentos de pedras. Isso foi as 4 horas desta sexta. Saímos de lá as 9h (ainda nao encontrei a crase no teclado) e a 15 minutos de Arequipa, o carro pifou. Daí, espera para fazer baldeacao, chega aqui, o dia já todo perdido, corre para ver o que pode ser visto tao tarde, topa com centenas de gringos, a temperatura baixando para os 21 graus desta época, compra o boleto para fazer uma viagem ao Vale do Colca, com um dos canions mais profundos do planeta (3.400 metros no ponto máximo) e esperar para manha um chá de coca (aqui tem uns blusas legais que dizem algo como a "a coca é legal, ruim é a cocaina. Mas os caras nao querem vender duas por 15 soles, se nao levava para um amigo mal humorado daí).
Lima foi uma droga. Para os visitantes futuros: fiquem em Miraflores, a parte mais central e turística da cidade. Daí é possível chegar ao centro velho e pirar,entre outras coisas,com uma igreja franciscana e suas catacumbas cheias de ossos. É fantástico...Nada de ficar fora do Centro Velho ou de Miraflores, repito. Se nao, vao se dar mal na hora do deslocamento.
Em Miraflores, por acaso, há um sítio arqueológico chamado Museu de Pucllana. A entrada custa cinco soles. Fica bem no meio de um bairro residencial. Agora é que os arqueólogos estao fazendo as escavacoes. É gigantesco (tem seis hectares e uma altura, calculo, de 15 metros. De noite parece um depósito de areia. Mas antes tinha 20 hectares. É de uma cultura de 700, 800 antes de Cristo, os Lima).
Agora vou passar dois dias no Vale do Colca e depois, finalmente, encarar o que vim fazer aqui: Cusco e Machu-Picchu.
Ah, curiosidades. A empresa de onibus na qual vim (Cruz del Sur, mas tem um bocado fazendo essa rota) dá janta com refri (lembra a comida de aviao) promove bingos sorteando a passagem de volta para Lima (quase...só faltaram dois números) e vende água e salgadinhos. Zero água.
Por favor, dá para mandar mais energia positiva? Ou tá pouca a enviada ou os Andes estao bloqueando a transferencia.
Bjs a todos os que estao comentando. Fico feliz em te-los perto nem que seja virtualmente. Afinal, estar ligado virtualmente perto de casa é uma coisa. No teto das Américas é outra.


quarta-feira, dezembro 15, 2004

Uma odisséia na água

(De Iquitos)

Resumindo: nunca fiquei tanto tempo perto de água. A viagem que duraria somente 9, 10 horas no máximo, transformou-se numa jornada de 27 horas, com direito a paradas em aldeias indígenas e vilarejos onde a energia elétrica é desligada quando batem as 21h30, batidas em troncos na noite no rio Amazonas, medo de naufragar na madrugada, barqueiros desorientados na nevoa do "cruzamento" dos rios Napo e Amazonas, canoas carregadas de pessoas e frutos que ultrapassam um barco considerado muuuuittto rápppiiiiiido como se fossem iates a jato.
Em Iquitos tem uns táxis que parecem aqueles "paxas" (acho que é assim que se escreve) indianos, só que puxados por motos. A parte central até que é bonita. Só o porto que é feio de se ver.
E o pior é que quando mais se navegava,mais parecia que tinha Amazonas para percorrer.
Bom agora é ir para Lima e depois para Arequipa e depois para Cusco, finalmente.

O bom deste tipo de atraso é que acabamos conhecendo pessoas que estao na estrada como a gente, seja a negócios, turismo ou trabalho. O barco, que pela averia foi trocado por uma lancha furreca, parecia um festival de sotaques da Amazonia.

Também se aproveita para refletir um pouco sobre a vida. Mas só um pouco, que cansa.

Bom, agora, da selva para os andes.

segunda-feira, dezembro 13, 2004

Um Pemón na estrada

De Tabatinga, uma outra fronteira


Se fosse de barco, demoraria 3 dias para chegar aqui. Mas nada que um investimento numa passagem de avião não resolva para ser possível cobrir 1.105 km em linha reta em duas horas e meia. Por água, a distância sobe para 1.607, segundo o portal da cidade. Somando com o trecho de ônibus de Boa Vista a Manaus (mais ou menos 800 km), já fiz quase dois mil km. Ou seja, tô rodado.
Tabatinga é abafada, como todas as cidades amazônicas. Tem moto-táxis que rodam sem capacete, tem contrabando de um monte de produtos que vão para Letícia, a cidade a lado, como importação (ou seja, mais baratos) e voltam sem pagar impostos. O comércio de confecções é agitado. O porto também. Muitos índios pobres na beira do mar vendem farinha que trazem em "baldes" feitos de palmeiras. É outro mundo, o que me lembra que se metade do que o poder público alega investir fosse usado para melhorar a qualidade de vida das pessoas chegasse até elas, o mundo estaria melhor.
A passagem para Iquitos, a próxima parada, custa 50 dólares por barco, numa viagem que demora 12 horas. Tem uma empresa de aviação que faz a rota duas vezes por semana, mas não descobri o preço.
O barco sai às 5 da manhã. Tomara que não vire. Afinal, ainda não sei nadar e ainda quero chegar em Floripa para comer peixe na beira do mar...
Esta é a terceira cidade fronteiriça que conheço. Em todas, por coincidência, há uma grande concentração de indígenas. Mas aqui é difícil saber quem é colombiano, peruano ou brasileiro. Sei que todos são índios pelos traços, principalmento o nariz adunco. Isso me lembra como o conceito de nação e país é abstrato, mais ocidental de que outra coisa.
Me sinto no entroncamento do fim do mundo, mas próximo ao teto do mundo.

(Aos amigos que vão me ler e tem seus blogs e fotologs, vai ser complicado retribuir a gentileza. Mas espero que continuem mandando força positiva.)


sexta-feira, dezembro 10, 2004

Alturas de Macchu Picchu,

do livro Canto Geral, de Pablo Neruda

Então na escada da terra subi
entre o emaranhado atroz das selvas perdidas
até a ti Macchu Picchu.
Alta cidade de pedras escalares,
por fim morada do que o terrestre
não escondeu nas adormecidas vestimentas.
Em ti, como duas linhas paralelas,
o berço do relâmpago e do homem
embalavam-se de espinhos.

Mãe de pedra, espuma de condores.
Alto arrecife da aurora humana.
Pá perdida na primeira areia.

.........................

Tomara que consiga pensar em alguma coisa parecida quando topar com as pedras escalares.

A cada viagem, sempre o receio:se alguma coisa ruim deve me acontecer, que seja depois e não antes ou durante a caminhada.

A cada viagem, o desconforto de deixar o conforto e a excitação de encarar o desconhecido.

A cada viagem, a tentativa de saber como retornarei, a fim de tentar validar a lei do Saramago: todo aquele que começa alguma coisa não é o que a começou.

A cada viagem, pensar na próxima viagem.

segunda-feira, dezembro 06, 2004

Da série Redatores da Fronteira, Bruno Garmatz, tomador de chimarrão, escritor à procura de uma editora e zen foto-jornalista chefão do fotolog Veja Roraima.



Sumário

O que eu não gostava em você
Não eram os teus ataques histéricos
Nem teus porres homéricos
Nem teu jeito maluquinho de ser.

Também não eram tuas roupas esquisitas
E os cabelos vermelhos
E toda hora dando conselhos
Pelo telefone em conversas infinitas.

Nem tampouco os teus peneuzinhos
E o vício de mascar chicletes
Ou aqueles enormes joanetes
Que enfeitam teus pezinhos.

Também não era teu umbigo saltado
E nem a tua celulite
E essa tal sinusite
Que não saía do teu lado.

E nem as rugas do canto do olho
Que chamam de pés-de-galinha
E aquela tua comidinha
Sempre tão cheia de molho.

O que eu não gostava em você
Não era a tua mania de tirar sarro
E sim o maldito cigarro
Que você não conseguia esquecer.

quinta-feira, dezembro 02, 2004

Falando de uma viagem

Ao entrar na Venezuela, no posto de fiscalização, a revista do Guardia Nacional:

Desça de carro
Documentos
O que tem no bolso?
O que tem na pochete?
O que tem na carteira?
Que tipo de moeda você carrega?
De onde você vem, para onde vai?
Você é deste, daquele ou do outro estado? Parece.
O que você faz na vida e no Brasil?
Ok. Pode guardar. Fulano, vai checar o senhor? Sim, por ali, por favor.

Na tenda militar, quente e abafada:
Documentos
O que tem na pochete?De onde você, para onde vai?
O que você faz na vida e no Brasil?
Tem crachá? Posso ver?
Hum, jornalista é periodista? Tudo bem, pode ir. Nós levamos isso, quer dizer, eu levo em conta quando a pessoa tem uma profissão definida. Você sabe que tudo isto é procedimento rotineiro.

Na saída, depois que pego a bagagem, pela segunda vez neste ano ouço a frase, dita em tom de voz leve e esclarecedor aos outros Guardias: el chamo es periodista.

E aí eu lembro que a fronteira é uma rota de tráfico internacional de cocaína e me pergunto o que os Guardias fariam se fosse alguém sem um crachá, diploma ou profissão para ser referenciado.


segunda-feira, novembro 29, 2004

Manhã de segunda-feira. Calor em Boa Vista. Ar seco. Suor.
O calor me incomoda, me deixa enjoado. Mais de uma década depois, ainda não me acostumei com ele.
Na delegacia, o mau cheiro me deixa mal. Quase uma hora para registrar queixa.
O ambiente das delegacias e dos hospitais me deprime. Acho que não conseguiria trabalhar neles.
Na recepção e na sala onde se fazem os BOs, apenas um ventilador. Paredes sujas, descascando. Quero vomitar.
O policial é bom no atendimento, encaminha bem as coisas. O escrivão é educado, porém realista: vá comprar outra bike, meu rapaz. No tempo que estou aqui, nunca vi ninguém recuperar a sua.
Eu também, penso. É a quinta que me furtam desde que vim morar aqui. A mãe de uma amiga me orientava sempre a deixar preenchido o formulário de queixa. Agilizaria minha vida.
Já me levaram gravadores, tênis, sandálias, camisetas, bermudas, mochilas, livros...apenas para falar de objetos. Nunca os recuperei. Apenas para mencionar objetos.
Acho que não vou mais trilhar neste ano. Mais um da turma que entra de licença forçada.
Na rua, olho todos os ciclistas com mais atenção.
Perder é bom por isso. Os detalhes do mundo passam a ter mais importância.
A perda também quebra rotinas. Mas tudo o que não precisava nestas duas semanas era isso, assim como a necessidade de ir à Venezuela repentinamente.
O que desejo para o ladrão? Nada de mais. Não sou vingativo. Apenas que seja atropelado. Ou que um cachorro o morda na jugular na próxima vez que entrar no terreno alheio.
Acho que o calor me deixou irritado...


sexta-feira, novembro 26, 2004

Cenas românticas


Olhe para mim. Sinta minha fome de você.
Chegue mais.
Sorria, que eu te olho fascinado.
Cheiro teu rosto inteiro.
Se quiser rir, faça isso.
Ainda te cheiro, desta vez no cabelo. Minha mão direita na tua nuca.
Volto de teu cabelo, tocando teu rosto com meu nariz e minha boca.
As duas mãos na tua cintura.
Roço meus lábios nos teus e busco sentir tua respiração, teu hálito.
Os lábios se tocam, se molham.
O beijo, de fato.
As mãos, na nuca. As mãos no corpo.
O beijo lembra o primeiro do nosso namoro.

O restante é o de sempre. Você me lembra que hoje é quarta, diz que está com dor de cabeça e que prefere ler um livro. Eu vou pegar uma cerva enquanto te xingo mentalmente e depois ligo a TV para ver uma partida de futebol.

quarta-feira, novembro 24, 2004

Bomba mata promotor que investigava adversários de Chávez

"O promotor disse à agência de notícias Reuters há menos de duas semanas que esperava completar em breve o indicamento formal de todos os acusados."

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Na Venezuela, quem se mete a besta com as elites que dominaram o país durante 43 anos morre.

Foi esse o destino do promotor de justiça Danilo Anderson, que investigava as pessoas envolvidas no, por enquanto, último golpe de estado do país vizinho, em 2002.

O governo Hugo Chávez Frias, incluído no eixo do mal pelo reeleito Bush Júnior, já está adiantado na caça dos assassinos que explodiram uma bomba no carro de Danilo e movimenta sua bancada parlamentar para aprovar uma lei anti-terrorista que limite a ação dos paramilitares supostamente treinados pela CIA para desestabilizar a V República.

Alguns desses homens já foram presos neste ano a poucos quilômetros da residência oficial do presidente. E de vez em quando aparece um líder oposicionista dizendo que a solução para os problemas da Venezuela está numa arma de precisão com mira telescópica apontada para a cabeça de Chávez.

Chávez, falastrão e altaneiro quando se trata de defender o que considera ser o melhor para os venezuelanos, não poupa críticas à política externa dos Estados Unidos da América (sic) de levar a democracia e a paz a todos os rincões do planeta, citando sempre o Iraque, Afeganistão e Colômbia, entre outros países.

O que será do futuro político do país vizinho é uma incógnita.

De certo, só que na Venezuela se leva muito a sério o refrão "quien a hierro mata, a hierro muere", amaciado em português para "quem com ferro fere, com ferro será ferido."

segunda-feira, novembro 22, 2004

Da série "Redatores da Fronteira", um texto de Ricardo "Pcapuleto" Amaral, estudante de jornalismo da UFRR, jogador de futsal e integrante do Orkut, escrito num dia não muito distante de sua adolescência.


Depois de tudo, sempre viverei no limite
No limite extremo
Que a determinação me permite.
Com os olhos talvez perdidos
No desejo de querer-te,
Envoltos em lágrimas
Que escorrem pelo chão,
Formando um oceano infinito,
Mar de paixão...
Talvez nem mesmo me encontre
Neste labirinto,
Mistura de emoções que trituram meu coração,
E me fazem morrer por dentro...
Mesmo assim,
Talvez sem estarmos presentes
A esses encontros que duram para sempre...
Nossas almas persistam em viver
Nos desencontros casuais de nossos destinos...
Talvez nossos pensamentos se busquem mutuamente
Para juntos recordarem todos os momentos.
Lembranças guardadas junto de suas existências são como o tempo,
Nunca terminam e não morrem jamais.

sexta-feira, novembro 19, 2004

Euzébio, o contador

(De G. Guarabyra, publicitário, jornalista e amante de futebol e da boa cozinha)


Em seu quarto alugado, Euzébio era o retrato da solidão. Sozinho desde que a mulher confessou, em lágrimas, que não agüentava mais aquilo, passou a viver com a metade do coração. Procurava um emprego, desesperadamente, ainda alimentando a esperança de que um dinheirinho - pouco, mas certo - seria o suficiente para arrumar as camisas no guarda-roupa e a vida nos trilhos. Calças e camisas amarrotadas se espalhavam sobre a cama sempre desarrumada, a pia do banheiro repleta de cuecas mergulhadas na água.

Acordara cedo, disposto a arriscar na passagem de ônibus os últimos trocados emprestados por um amigo. Não é possível que nessa cidade ninguém esteja precisando de um contador habilidoso e experiente com eu, injetava confiança em si mesmo. Tentava desamarrotar a camisa usando as mãos como se fossem um ferro de engomar.

A barriga não cabia mais dentro da calça. Em todas as peças romperam os botões. Havia encontrado um grande alfinete que servira para prender as fraldas da pequena Camila, quando ele, a filha e a mulher, Marilza, ainda viviam juntos. As duas partes da calça que precisavam ficar presas corriam para os lados, mas acabavam contidas pelo grande alfinete, uma peça formada por duas hastes de metal, uma delas presa por uma presilha na ponta.

Na parte mais abaixo o zíper permanecia aberto até o meio da braguilha, mas as bordas da camisa encobriam o alfinete, um detalhe, para ele, fundamental. A exibição daquele arranjo seria o mesmo que anunciar publicamente o estado de humilhação em que vivia. Por isso mesmo, habituara-se a caminhar pelas ruas sempre com uma das mãos segurando a camisa na altura do alfinete, de modo a impedir que um vento levantasse a roupa e expusesse aos passantes sua penúria.

Ônibus cheio, como sempre, ficou em pé bem no meio, pronto para avançar quando se aproximasse o ponto onde deveria descer. Uma mão segurando o suporte colado ao teto, a outra impedindo que a camisa levantasse muito.

- É um assalto!
O grito veio do fundo do ônibus. A freada brusca jogou algumas pessoas sobre Euzébio, ele segurou firme o corrimão do teto e, mais firme ainda, manteve a camisa no lugar. Duas portas de emergência foram abertas num piscar de olhos, passageiros caíam no asfalto e corriam em desespero, dois policiais militares surgiram não se sabe de onde, armas em punho, um entrando pela porta da frente, outro pela porta de trás.

No ônibus praticamente vazio os policiais avistaram Euzébio com uma cara suspeita. No empurra-empurra, ele percebeu que o alfinete se abrira. Rápido, meteu a mão por baixo da camisa para impedir que a calça fosse ao chão.
- Ele tá armado!
O cabo Oliveira, campeão de tiro da 8ª Companhia, não teve dificuldade para acertar um disparo bem no meio do peito gordo do contador.
- O elemento ia atirar, Oliveira!
- Se eu não sou ligeiro, hein, sargento!

quinta-feira, novembro 18, 2004

A casa dos barões continua caindo


Manhã agitada na sede da superintendência da Polícia Federal de Roraima. Por conta das investigações do Caso dos Gafanhotos, vários figurões de Boa Vista foram presos, entre eles um ex-secretário de Fazenda, o ex-responsável pelo Tesouro Estadual e os sócios da empresa que fazia os pagamentos dos servidores públicos.

Do lado de fora da superintendência, sob o sol, os representantes da imprensa, ávidos e de óculos escuros. Estavam acompanhados de algumas pessoas que gritavam 'ladrão", "bem feito" e coisas do tipo a cada sujeito que chegava na parte de trás dos camburões da Federal.

Das três rádios FMs da cidade (o sinal das AMs estava péssimo), apenas uma deu cobertura à movimentação. Em certo momento, uma delas falava sobre melancias e outra mandava abraços aos ouvintes.

Na emissora que ficou de plantão, comentários exaltados sobre a ladroagem, sobre a corrupção, sobre justiça sendo feita. Um radialista se revoltou por ter entrado no prédio da Federal algemado, depois que foi pego contrabandeando gasolina da Venezuela, mas não viu os figurões tendo o mesmo tratamento. Falaram em justiça desigual.

Outras pessoas falaram em fortalecimento da democracia, moral e ética.

Como de costume, também se falou (e vai ser escrito, com certeza) em vergonha para o Estado, exposição desnecessária, constrangimento.

Parece que todos querem ver presas as pessoas acusadas de desviar cerca de 230 milhões de reais dos cofres públicos, mas de preferência sem alarde, afinal, todos se conhecem em Boa Vista, todos freqüentam as mesmas festas e aparecem nas mesmas colunas sociais, têm a mesma pinta de boa gente, usam quase sempre as mesmas marcas de carros e motos importadas.

É sempre a mesma reação. Os servidores-fantasmas, ou gafanhotos, por serem os devoradores da folha de pagamento, não são uma novidade. Nas eleições de 1998, o extinto jornal O Diário, ligado intimamente ao governador Ottomar Pinto, publicou uma listagem dos deputados e secretários estaduais e a cota de gafanhotos de cada um. No outro dia, na mídia escrita, apenas as defesas do grupo do então governador Neudo Campos. Ninguém questionou muito, talvez para não perder as cotas de publicidade, talvez por acreditar que eram mentiras criadas pela imaginação de um grupo de descontentes.

E assim se faz a história em Roraima.

terça-feira, novembro 16, 2004


Depois de uma semana de surrealismo político, O Crônicas da Fronteira tem o prazer de apresentar mais uma edição de sua série de maior sucesso: Escritos para mulheres especiais.


Acuerdo

(para ler ouvindo "Il postino" ou "Beatrice", da trilha sonora d?O Carteiro e o Poeta)

Hagamos un trato:
Si quieres me voy.
Si no, me pongo donde mandes,
Me vuelvo un polo sur
Uma aldea a orillas del Amazonas.

Hagamos un trato:
Yo me quedo tranquilo
Si me dejas dormir en paz
Acompañado solamente de la luna.
Acéptalo, por favor,
Mis lágrimas te lo imploran
Lo necesitam como cielo azul al sol
Como isla al oceano.

Déjame vivir lejos
O recibe mis poemas
Y leelos por las noches.
Cuando amanezca, miénteme
Si es necesario y dime que
Se parecen a los de Neruda.

Hagamos un trato:
Dime que trato quieres
Para arreglar esta situación
Y echar el barco al mar
Para ver en que lugar podemos navegar.

Hagamos la paz o la guerra
Hagamos distancia o amor.
Pero tiene que ser ahora.
Lo siento, pero soy así.
Como agua sin sed
Com letra sin papel.
Soy así, sin ti.

Por eso te lo pido
Por la vida, por Dios en el cielo,
Antes que sea tarde
Y todo sea imposible,
Hagamos un trato.

sexta-feira, novembro 12, 2004

De novo, política.

Não deu pra aguentar...Leia na tarde de sexta o que sairá no sábado n'O Globo. Depois, lá embaixo, clique no link que te leva para um artigo no site do Marlen sobre a situação da política roraimense. Até semana que vem.
(Sobre o post anterior, mudou tudo na Assessoria de Comunicação, com o descarte do nome anunciado em plena cerimônia de posse. É o jeito Ottomar de ser.)


Ottomar consegue recuperar R$ 12 milhões
desviados de convênios federais em Roraima

Humberto Silva
Especial para O GLOBO



BOA VISTA (RR). O novo governador de Roraima, Ottomar de Sousa Pinto (PTB), empossado na quarta-feira após decisão do Tribunal Superior Eleitoral que confirmou a cassação do mandato de Flamarion Portela (licenciado do PT) anunciou ontem que encontrou nos cofres do estado pouco mais de R$ 1 milhão, porém, numa operação entre a Secretaria da Fazenda e a rede bancária, conseguiu recuperar mais R$ 12 milhões, que segundo ele, ?através de manobra conseguiram desviar os recursos de convênio federal para fazer pagamentos que não correspondiam ao convênio?.

Ottomar disse que com a recuperação dos aproximadamente R$ 12 milhões, de convênios federais, recebeu o governo com um caixa de R$ 14 milhões. ?Tivemos que agir rápido para que não fossem descontadas as ordens bancárias?, afirmou o governador negando-se a informar em nome quem eram os pagamentos, para não atrapalhar a auditoria que determinou em todas as secretarias.

Dívidas

Além da tentativa de desvio de R$ 12 milhões, de convênios federais, Ottomar Pinto herda diversos acordos de renegociação de dívidas junto ao INSS, Eletronorte e ainda o empréstimo concedido pela CAF ? Corporação Andina de Fomento ? no valor de US$ 23 milhões, ainda na administração do ex-governador Neudo Campos, cujos recursos deveriam ser destinados a interiorização da energia de Guri.

A obra de interiorização não foi realizada na administração de Neudo Campos nem na de Flamarion Portela e a partir de 2004, o governo de Roraima tem que pagar duas parcelas por ano no valor de R$ 7 milhões cada, sendo uma em junho e outra em dezembro.
Junto ao INSS, antes de sair do governo, Flamarion Portela fez uma renegociação da dívida reconhecida no valor de R$ 232 milhões. Hoje o Estado paga R$ 600 mil por mês.

Além do empréstimo com a CAF e a renegociação com o INSS, Roraima tem outro acordo, junto com a Eletronorte e tem que desembolsar mensalmente R$ 1 milhão. Desde que o Estado foi implantado em 1991, nunca se pagou a energia consumida pelos prédios públicos.

Lula

Durante entrevista ao jornal O Globo Ottomar Pinto disse que vai ter uma relação respeitosa com o Palácio do Planalto, alertando que ?não vamos ser alinhados com tudo que o presidente Lula queira. Teremos relação respeitosa?, disse ele acrescentando após ter o levantamento das dívidas do estado com a União, vai buscar o Poder Central para discutir a situação.

Gafanhotos

Após a posse de Ottomar Pinto no governo de Roraima, o Tribunal Regional Eleitoral anunciou para o dia 23 de novembro o julgamento de uma Investigação Judicial Eleitoral impetrada por Pinto contra o ex-governador Flamarion Portela e mais cinco deputado reeleitos em 2002 ? Chico Guerra (atual vice-presidente da Assembléia), Mecias de Jesus (presidente da Assembléia), Berinho Bantin, Urzeni Rocha e Sérgio Ferreira, além 11 ex-deputados e um vereador de Boa Vista.

O processo é pautado no Escândalo dos Gafanhotos, que em novembro de 2003 levou mais de 57 pessoas para a prisão, inclusive o ex-governador Neudo Campos.
Na pauta da sessão do TRE-RR do dia 23 de novembro serão julgadas três Investigações Judiciais Eleitorais movidas por Ottomar Pinto contra Flamarion Portela, deputados e ex-deputados. O processo já está com relatório final elaborado pelo Corregedor-Eleitoral, desembargador José Pedro Fernandes que não se encontra em Boa Vista.

Na Investigação, os advogados de Ottomar Pinto acusam o ex-governador e parlamentares de sua base aliada de terem utilizado um grupo de 20 pessoas para receberem de janeiro a julho de 2002, por meio de procuração, o salário que o governo de Roraima pagou para 319 servidores ?fantasmas?.

O TRE-RR cassou em 2004 os mandatos dos deputados estaduais Flávio Chaves (PV) e Jálser Renier (PFL). Chaves conseguiu voltar ao mandato por decisão do Tribunal Superior Eleitoral que por sua vez manteve a cassação de Renier. Ambos foram acusados de compra de votos.

Juristas ouvidos no Tribunal Regional Eleitoral não adiantam qual pode ser a decisão de relator as investigações, antecipando apenas que no caso dos ex-deputados envolvidos a pena pode ser apenas de inelegibilidade. Quantos aos parlamentares detentores de mandatos, podem ser cassados.

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Muito bem, já que vc aguentou a leitura e deve estar pensando como diabos Roraima chegou a este ponto, vale a pena ler a versão do Marlen:


E ASSIM TUDO COMEÇOU

Eduardo Levischi, então ex-diretor geral e todo poderoso do DER foi exonerado e abandonado pelo Reizinho de Coreaú. Estando entregue a própria sorte e tendo o Ministério Público em seu calcanhar, o matreiro Levischi tomou a decisão mais sensata para sua vida. Assim pensou...'entrego tudo o que sei e o que tenho de documentos, tendo em troca privilégios no processo do roubo de milhões de reais...'. (Leia o artigo completo)


Ainda sobre o novo governo

(Infome da gerência: Voltaremos da surrealidade na próxima semana)


Em tempos de mudança de governo, o melhor informativo a ser lido não é da iniciativa privada, mas sim o Diário Oficial do Estado.

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Nem nas festas feitas pelo ex-governador Flamarion Portela tantos carros ficavam parados por tantas horas na área de estacionamento da sede do Executivo.

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O mundo da política não é lógico. Quem estava à frente, fica para trás. Quem estava nos bastidores, ganha um holofote só para ele. Ou, no caso, a Assessoria de Comunicação.

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Ottomar resgatou do ostracismo o dono do jingle mais lembrado das campanhas políticas de Roraima: Belgerrac Batista, que nas primeiras eleições diretas para governador de Roraima, no início da década de 90, com a slogam: tá tudo bem, tudo Bell!

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O secretariado do novo governo é formado por antigos colaboradores e uma turma que se aliou e acompanhou o brigadeiro mais recentemente. Entre os cargos que já distribuiu, beneficiou um cunhado, a esposa (ex-senadora Marluce Pinto), um genro e um sobrinho. Alguém falou em nepotismo?

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O governador já disse a que veio: é sim candidato a reeleição e vai trabalhar para que a reserva Raposa ? Serra do Sol não seja homologada em área única, com seus 1,8 milhão de hectares. O CIR que se dane.

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O PT nacional disse à Agência Folha que aceitar Flamarion no partido foi um erro que poderia ter sido evitado, um alerta, para ser mais exato. Mas só agora eles perceberam, depois de dezenas de denúncias de corrupção, um ano de afastamento da sigla, vários julgamentos na Justiça e cassação do mandato do homem?




quarta-feira, novembro 10, 2004

TSE nega recurso e governador de Roraima deve deixar cargo (Folha Online)

TSE afasta o governador de Roraima (Agência Estado)

Ottomar será diplomado à tarde no TRE e empossado à noite na ALE (Brasil Norte)

A queda do governador Flamarion Portela e o retorno de Ottomar Pinto ao governo estadual deixou muita gente suando em Roraima. E não foi por conta dos mais ou menos 40 graus de temperatura ambiente que estamos passando em Boa Vista.
Ottomar no poder significa a total reengenharia da política roraimense, com mudanças óbvias nos cargos de chefia do governo e o revigoramento do grupo do velho brigadeiro, que passou os últimos quatro anos à mingua e está com fome, muita fome.
Significa também que o foco dos investimentos estaduais deve mudar, com novas empresas sendo beneficiadas pelos contratos e novas prioridades sendo estabelecidas.
A decisão da justiça é um tapa na cara do PT local, partido do qual Flamarion estava licenciado desde o ano passado.
Com o novo governador, o PT perde a liderança do governo na Assembléia Legislativa e a chefia de secretarias importantes como a de Educação, com 900 cargos comissionados e 12 mil postos de trabalho.
O retorno doerá principalmente para algumas empresas de comunicação, a exemplo do grupo Folha de Boa Vista, cujo dono é irmão do ex-vice-governador Salomão Cruz e redator de uma coluna que nunca poupou críticas ao brigadeiro, além de desqualificar a batalha judicial vencida na noite de terça-feira.
Mas será fantástica para outras, como a retransmissora da Rede TV!, pertencente à esposa de Ottomar, ex-senadora Marluce Pinto. Quem sabe, até surja um novo jornal na cidade.

Este cronista só quer saber, caso não haja nenhuma reviravolta judicial:
1) Será que Ottomar, principal denunciante do esquema dos servidores fantasmas, vai montar cooperativas e criar novos cargos comissionados para contratar seus seguidores ou vai chamar com mais celeridade as pessoas que foram aprovadas no concurso de preenchimento das vagas do quadro funcional do Estado?
2) Quais serão as prioridades administrativas do novo governador, conhecido como homem de priorizar grandes obras?
3) Como será a relação com os deputados, que o renegaram desde que deixou o governo estadual em 1992, depois de eleger Neudo Campos, o herdeiro malvado?
4) Como fica a questão dos cargos federais à disposição do PT local (aliás, perderam nesta quarta a superintendência do Incra)?
5) Como será a disputa eleitoral daqui a dois anos, caso o grupo de Ottomar entre em confronto direto com o do senador Romero Jucá, atualmente o mais estruturado de Roraima?
6) Onde vão enfiar as caras aqueles que passaram dois anos andando de salto alto por conta dos postos e benefícios recebidos pelo governo de Flamarion Portela?
7) Será que o brigadeiro vai agüentar o tranco de governar um Estado que deve muitos de seus problemas a ele, conforme sempre disse a oposição?
8) Será que Flamarion continua vivendo no Estado?

terça-feira, novembro 09, 2004

Conversas

Ela disse:
- Conta-me um segredo teu.
Ele respondeu:
- Eu não. Vai que o usas depois contra mim.
Ela retrucou:
- Não sou dessas. Quem age assim é jornalista ou político. Eu sou apenas uma psicóloga.
Ele sorriu:
-Então chega mais...

segunda-feira, novembro 08, 2004

Coisas de jornalismo

Ricardo Kotscho limpa as gavetas para deixar a Assessoria de Imprensa do governo Lula, mas ainda é possível encontrar nas bancas a edição da Caros Amigos com o jornalista falando sobre o seu trabalho nos últimos dois anos.

A Agência Câmara noticia a retirada de tramitação do projeto de lei que cria o Conselho Federal de Jornalismo, apoiado por quem acredita que alguma coisa deve ser feita para quebrar a censura praticada pelos barões da mídia e criticado pelos que acreditam que o governo quer apenas determinar o que é bom ou ruim para ser veiculado. Nos dois lados, perceba-se, o discurso do acesso livre à informação.

No site do Marlen, um artigo sobre o CFJ questiona se vale a pena que exista e também outros assuntos referentes à profissão de jornalista.

Em Roraima, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais elege nova diretoria.

Enquanto isso, uma nova revolução parece estar a caminho. É o jornalismo na web renovando-se, conforme o Observatório da Imprensa. Agora é a vez de um jornal planetário, multilíngüe e sem donos.

sexta-feira, novembro 05, 2004

quarta-feira, novembro 03, 2004

Às mestras

Olha só, se és daqueles que acha que blog bom é aquele que é asséptico como um jornal, melhor pular este post e ir direto para os que estão lá embaixo. Ou então fecha a janela. O texto a seguir é repreensivelmente pessoal.
Continuas aí? Então agüenta, que hoje está quase brega.
Depois de um final de semana esticado, de ler o Cláudio falando de seus 26 felizes anos de casamento e o Nei comentando no mesmo post sobre como os amores nos ajudam a transpor obstáculos; de tomar ciência que meus pais completam 31 anos de casados em dezembro (com uma pausa para o almoço, que ninguém é de ferro); que meus avós maternos já completaram 55 anos de união; e conhecer a De falando sobre experiências de vida, comecei a pensar no que aprendi com meus romances.
Percebi, finalmente, o quanto as mulheres que beijei são responsáveis por parte do que sou (nada como poder jogar a culpa de nossos erros em mais alguém além de nossos pais).
Se não fossem elas, como poderia saber que há momentos para amar ao som de Bach ou de Mozart e outros em que Zeca Baleiro, Alcione ou uma salsa das antigas fazem muito bem as honras da casa? Ou então, aprender que ciúme é coisa tola, de quem não tem confiança em si mesmo?
Houve romances que me deram lições de cidadania, mostrando-me na prática que vale a pena caminhar alguns metros e colocar o copo ou a garrafa vazia na lixeira e não jogá-los na rua. Outros demonstraram que dizer bom dia todos os dias vale a pena, mesmo quando não há reciprocidade.
De tanto ensinar-me a ouvir, aprendi com elas que um "não" às vezes não é um "sim" (contrariando a lógica popular), mas quem sabe um "talvez" e que para desfrutar de alguns amores é preciso dividi-los com outras pessoas. Afinal, nem tudo na vida é feito de exclusividade.
Estas moças-professoras me ensinaram que marcar encontros com duas pessoas distintas na mesma hora nunca dá certo e que beijar amigas pode ser bom, mas às vezes pode ser uma batalha na qual se perde a amiga e não se ganha a mulher.
Elas me mostraram ser o silêncio necessário em certas ocasiões, principalmente quando choram e desmancham a imagem construída de mulheres quase insensíveis.
Entre as lições mais difíceis, a necessidade da confiança, do saber baixar a guarda para dar uma chance aos outros, mesmo que isso signifique expor alguns medos e segredos. Entre as fáceis, descobrir que amor não é tudo e que para alguns relacionamentos basta haver um pouco de carinho em encontros esporádicos.
Os romances afetaram até meu paladar (ah, te vi agora pensando em cenas de morango e chantilly como as do filme 9 semanas e meio de amor. Tsc, tsc, pega leve, leitor), fazendo-me descobrir que vez ou outra é sempre bom abastecer a geladeira com frutas, torradas e gelatina Royal para espantar a fome depois de rir e brincar.
Enfim, pensando um pouco mais, lembraria de muitas outras contribuições (e de algumas mágoas, com certeza), mas, bah, o que nunca conseguiram foi ensinar-me a dançar.
E tu, me diz aí nos comments, o que aprendestes com teus romances?

sábado, outubro 30, 2004

Sobre os concursados do governo de Roraima

Com toda a alegria que consegue transmitir por estar cumprindo suas obrigações, o governador Flamarion Portela (licenciado há cerca de um ano do PT , ou como diz o André, vítima de uma expulsão branca, por conta de um suposto envolvimento no Caso dos Gafanhofotos) convocou mil pessoas que havia sido aprovados no concurso público do Estado.
O total de vagas ofertadas no concurso passou das oito mil em diversas áreas. Com validade de dois anos, muitas pessoas têm medo de que o prazo expire e ninguém mais seja chamado.
O medo, a princípio injustificado se Roraima tivesse um histórico político diferente, baseia-se no aparente receio do governo em chamar os profissionais aprovados. As convocações vêm sendo feitas à base de pressão e reclamações, muitas reclamações na mídia.
Vale lembrar que Flamarion tem a seu favor o fato de ter quebrado com uma omissão que durava 12 anos. Os ex-governadores Ottomar Pinto e Neudo Campos (outro citado no escândalo dos servidores-fantasmas) preferiram deixar de lado essa bobagem de cumprir o que determina a lei e montar esquemas de contratações precárias que a Justiça considerou como feitos à medida para uso político-eleitoreiro.
Ao assumir e fazer o concurso, Flamarion ordenou uma limpa de mais de 12 mil nomes nos quadros do funcionalismo estadual, gerando revolta entre os aliados e os demitidos, mas encorpando o discurso do ajuste da máquina governamental ao que manda a Lei.
Mesmo assim, tem-se a impressão de que a coisa não foi bem assim.
Nesta semana, dois dias antes da convocação feita pelo petista licenciado, as informações de reportagem veiculada no jornal Folha de Boa Vista demonstram a quantas anda a vontade do governo em organizar a casa. Ou falta alguém que informe melhor e controle a secretária estadual de Educação, conhecida pela postura firme com que defende seus posicionamentos, na hora das entrevistas ou o concurso foi de fato uma balela.
Na matéria "Concursados denunciam ocupação ilegal de cargos na Educação", algumas pessoas reclamam da demora em serem chamados e da preferência dada a outras que sequer aprovaram no concurso e não teriam a escolaridade necessária para tanto.
Diz a matéria da Folha:
"Não fizemos concurso para quadro de reserva, mas para provimento de vagas", disse Matheus, lembrando que a elaboração do concurso público teve todo um custo para o Estado. "Inclusive, houve gastos com o assessor técnico que elaborou o planejamento por mais de R$ 250 mil, demonstrando a necessidade da contratação para o quadro do Estado", reforçou. "E agora dizem que não tem sequer local de trabalho para esses funcionários".

Aí vem a parte engraçada:

SECRETÁRIA - A Folha procurou a secretária estadual de Educação, Lenir Veras, que informou de início não ter nada a responder. Questionada sobre os direitos que estão pleiteando, ela disse que os concursados têm apenas "expectativa de direito".

Logo em seguida, a paulada:

Quanto à necessidade de mais servidores, Lenir disse que esse número está dentro do orçamento disponível na secretaria, embora tenha afirmado que o cargo sequer exista no quadro atual.
"Esse profissional será muito bem-vindo na secretaria, mas teremos que fazer algumas adaptações já que a função da qual eles fizeram o concurso não existe na secretaria, e acredito que farão mais o papel de assessoria", afirmou.
Sobre ao fato do concurso ter oferecido 201 vagas para essa função, Lenir Veras ressaltou que ela não estava à frente da secretaria e nem participou da comissão que aprovou o planejamento.
"Não sei qual o ânimo da comissão quando elaborou esse número, mas hoje o Estado tem a necessidade de diminuir o número de funcionários e de potencializar os recursos humanos, e uma pessoa fazer o serviço de dez", afirmou.
Ao ser questionada sobre as declarações de que funcionários estavam exercendo ilegalmente o cargo de analista educacional, ela foi incisiva: "Não existe ninguém, porque esse cargo não existe e não vamos inventar cargos para 201 pessoas", afirmou.
Diante das afirmações, ela foi indagada então do porquê de contratar os dez funcionários. "Por respeito à sociedade e à comissão que elaborou o planejamento. Mas que fique claro que não foi por pressão de ninguém e, como já falei, eles estão na expectativa de direito e temos que chamar alguém para dar satisfação à sociedade", frisou.

A matéria é isso. A parte interessante de tudo é esta declaração: "esse cargo não existe e não vamos inventar cargos para 201 pessoas", afirmou (a secretária).

Desorganização? Falta de comunicação entre quem pagou pelo concurso e as secretarias de Planejamento, Administração e Educação? Quem poderá saber, se todos estão satisfeitos com a convocação?

Em tempo, nenhum dos reclamantes na matéria está entre as 10 pessoas que foram convocadas pelo Governo para o tal cargo inexistente.

(este cronista foi um dos convocados. Mas como o salário é muuuiiiiiito baixo e não dá para bancar as contas fixas de cada mês, vai esperar a chamada para o cargo de nível superior em que foi aprovado. Outros jornalistas estão organizando uma campanha judicial para serem chamados rapidamente. Afinal, todas as vagas de Analistas de Comunicação Social estão ocupadas por não-concursados mas o atual governo insiste em falar que precisa primeiro organizar a casa para depois contratar quem vai tomar conta de sua imagem)

quinta-feira, outubro 28, 2004

De Zanny Adairalba, inspirada no post anterior.

O suicida

Um homem prestes a cometer suicídio.
CENÁRIO:
Janela de um apartamento no 27º andar.
O PENSAMENTO:
Minha mulher não liga mais pra mim!!
Minha mãe não liga mais pra mim!!!
Minha amante não liga mais pra mim!!!
Meus amigos não ...
O TELEFONE TOCA:
Por coincidência está em cima de sua mesa de estudo; bem próximo de suas mãos.
O PENSAMENTO:
Bolas!!! Quem inventa de ligar pra mim numa hora dessas???
UMA VOZ DESCONHECIDA:
Sr Djalma??
Sim!!???
Aqui quem está falando é Karla, do Serviço de telemarketing SPS (Salvamento a Possíveis Suicidas ) NÃO VÁ AGORA. O CÉU É APENAS UMA POSSIBILIDADE. O INFERNO SIM É UMA CERTEZA S.A.
Se o senhor está tentando suicídio com arma de fogo, tecle o número 1. Se for com arma branca tecle o número três. Se for no trilho do trem, tecle o número 5. Se for pular de algum edifício, tecle o número 7. Para outras opções mais criativas, tecle o número 9.
UMA AÇÃO:
O dedo inquieto aperta imediatamente o número nove.
A MESMA VOZ DESCONHECIDA:
Aguarde um momento. Vamos encaminhar o senhor para uma de nossas atendentes.
A MÚSICA DE ESPERA:
Tururururururulalaalalrurururtututu
UMA VOZ:
Serviço de telemarketing SPS (Salvamento a Possíveis Suicidas ) NÃO VÁ AGORA. O CÉU É APENAS UMA POSSIBILIDADE. O INFERNO SIM É UMA CERTEZA S.A., Bete, Booooom diaaaa!!!
UM SUÍCIDA CONFUSO:
B-bom di-a.
A PERGUNTA:
No que posso lhe ajudar???
UM INDÍVÍDUO INDIGNADO:
Ma...Mas foram vocês que ligaram para mim, ué!!!!!
A FORMALIDADE DAS ATENDENTES DE TELEMARKETING
Com quem estou falando Sr, por gentileza??
A IRA:
Djalma!!!!!!
Sr. Djalma, a sua vizinha nos ligou dizendo que o senhor está prestes a cometer suicídio. O senhor confirma?
A CALMA:
Sim. É ... é verdade!!!!
O senhor pretende fazer isto como, Sr. Djalma??
Pulando da janela de meu apartamento, ué!!!
Sr Djalma, eu estou aqui para lhe ajudar .... o Sr. está me ouvindo bem???
A ÚLTIMA ESPERANÇA:
Sim, minha filha. Estou lhe ouvindo muito bem.
Sr. Djalma, não se desespere. Confie em mim.
AS LÁGRIMAS:
Minha filha... então me dê um bom motivo para eu continuar vivo!!Todos me abandonaram!!!
Sr Djalma. Tenha fé. Eu não vou lhe abandonar. Acre...
O SOM:
Tu tu tu tu....
UMA LIGAÇÃO QUE CAI
UM OLHAR DE DESESPERO
UMA ÚLTIMA FRASE:
Ninguém liga pra mim. E quando liga...desliga na minha cara.

terça-feira, outubro 26, 2004

Coisas da vida

Há dias em que o corpo e a alma ficam mais suscetíveis a uma paixão.

Nesses dias, nem sequer as atendentes de telemarketing ligam para você.

segunda-feira, outubro 25, 2004

Domingo de teatro na praça

Por pouco, a oficina de interpretação realizada pela turma do Erro Grupo não acabou na delegacia. Os catarinenses, que estiveram em Roraima a convite do Sesc, promotor do projeto Palco Giratório, levaram os alunos para mostrar na rua à noite o que haviam aprendido durante a tarde.
Após receberam chamadas de supostos pais inconformados com a performance do ator Anderson, um dos participantes da oficina, Policiais Militares e Guardas Municipais apareceram no Portal do Milênio, uma das praças mais freqüentadas de Boa Vista, para saber qual o motivo daquele rapaz estar deitado sem camisa no chão e gritando como um louco na noite de domingo.
Convencer os Guardas foi fácil. Eles só queriam saber se aquilo ali era mesmo teatro. Pergunta até justificável no contexto, pensariam, afinal, gritar é atuar? Uma das atrizes do Erro, a (ai, ai) bonitona Dayana Zdebsky, já enfezada com a discussão, ameaçou mostrar a registro da DRT para provar a verdade de sua profissão. Não precisou.
Ao lado, um dos rapazes do grupo, com uma barba à Los Hermanos, travava um debate com um dos sujeitos que aluga carrinhos elétricos para as crianças passearem na praça. O rapaz queria a retirada dos atores, alegando que estavam assustando as crianças e que os pais haviam reclamado da performance. Com a sensatez de quem estava perdendo fregueses para o teatro, invocou a bíblia para justificar seu pedido-ordem. "Isso é coisa do diabo. As crianças não podem olhar isso", disse. O catarina barbudinho, coitado, ainda tentou ter uma conversa racional, citando arte, liberdade de ir e vir, direito de escolha...
Nesse momento, dois Policiais Militares já estavam a perigosos centímetros do ainda deitado no chão e berrante Anderson, que espertamente olhava para a noite de lua crescente em vez de encará-los.
Os PMs queriam parar tudo, sob a alegação de perturbação da ordem pública. Mas quem havia reclamado, além dos donos dos carrinhos? Pais, vários pais, respondeu o policial, sem ter em conta que estava rodeado por adultos e crianças em êxtase querendo saber o que estava acontecendo. As mesmas crianças que alguém alegara estarem com medo minutos atrás.
É um projeto teatral, é arte, alguém explicou. Isso é arte?, inquiriu com um sincero ar de desconhecimento. A explicar que comedia dell arte não é Casseta & Planeta e coxia nunca foi parente de quibe, é melhor ser pragmático na argumentação. É sim, é o encerramento de um curso, responderam outro clone de Los Hermanos, ops, ator do Erro, e Rosana, do Sesc Roraima. "Ah, mas então vocês deviam avisar as pessoas, explicar o que estão fazendo. É melhor parar e explicar", pediu.
Dayana, você, que tem uma voz forte, pede um segundo para o Anderson parar e grita bem alto que isso aqui é teatro? Ah, não. Não tenho como fazer isso, respondeu a (ai, ai) enfezada bonitona.
Quase nesse momento, o berrante Anderson, que talvez nunca tivesse visto tantos pés e pernas em torno dele, levantou como se nada, saiu andando com calma, não sem antes fazer uma debochada pose de Madame Satã, e foi aplaudido por todos os presentes. Fim do espetáculo, que ficou mais rico com a participação dos representantes da lei.
As outras intervenções transcorreram tranquilamente. Ninguém ameaçou o Renato (louco orientador), a Lidiane e o Marcos (a chorosa e o filósofo), a Joelma (noiva abandonada), a Kywsi e a Carol (animadoras) ou o restante dos 17 participantes da oficina.

Conclusões:

Deveríamos ter deixado os PMs levar o Anderson e a turma do Erro. Ia ser engraçado ler/ouvir a justificativa da idiota prisão na mídia. Sem contar que poderia ter vendido a matéria para o Diário Catarinense (manchete: atores catarinas são presos em Roraima por apresentar-se na praça) ou para o Diarinho do Litoral (Fim do mundo: Em Roraima, meganhas enfiam caras do teatro catarinense no xadrez).
No final, foi concluído que tudo pareceu uma briga do capital contra a arte. Venceu a arte, graças a Deus.
Surpreendeu-me como as pessoas questionaram os atores sobre o conhecimento, fé e obediência às leis de Cristo. Pus-me a pensar que ou o Filho do Homem não gostava de teatro ou fazia performances muito melhores de que as apresentadas no domingo.

sexta-feira, outubro 22, 2004

Declarações noturnas




Chega a noite na terra de ninguém
Batem sinos e botas. Hora de ir.
O cheiro de borracha mancha a mão.
Um velho fumante encosta a cabeça na parede.
Garrafas de aguardente tiram a sede.
Soldados com frio pagam por amar.
O som de carros vem de longe.
A moça mostra à irmã como enganar o pai.
Sorrisos falsos reforçam o combate.
Adjetivos declaram guerra a substantivos.
A queda d'água é como a queda da bolsa.
Crianças jogam basquete no cesto de lixo.
Completa-se a morte do sol.
Termina o tempo dos escritórios.
Gente contente mostra para todos:
Chegou a noite na terra de ninguém.

..........................

Comerciais da Fronteira

O companheiro Marlen Lima republicou o post "Conversas Possíveis" no seu site. Alguns comentários dos leitores deste blog estão lá, além de uns acréscimos que podem ajudar a desvendar um pouco sobre a personalidade de Orib Ziedson.

Ainda na linha divulgação gratuita, recomendo lerem o fotolog da Adenice, integrante do desfeito Trio Barraco, para lerem suas reflexões sobre minha querida pessoa.

quarta-feira, outubro 20, 2004

Histórias

Patrícia é uma garota de família decente. Nunca transa com estranhos. Por isso sempre pergunta antes o nome das meninas e meninos com quem se relaciona.

Airton é contumazmente religioso. Ele conta que cada vez que queima um baseado, está a conversar com Deus.

Pedro está decepcionado com a indisposição juvenil para o estudo. Há dias não consegue convencer nenhum rapaz a estudar sua anatomia.

Helena é um poço de dúvidas. Não sabe se volta para o antigo namorado ou assume o romance com o colega de trabalho. Na incerteza, optou pelo rapaz que conheceu no pagode de domingo.


segunda-feira, outubro 18, 2004

Calor. Boa Vista abafada. Os próximos se afastam. Os distantes morrem. Pouco a pouco. Ou de vez. Mas todos os dias e sem deixar saudade.
Baudelaire, Marx, Milton Santos. Um pouco de The Commitments, The Doors e cinema peruano.
Vírus de computador. Placas-mãe defeituosas. Filhos problemáticos. Arquivos e vidas corrompidas. Memórias apagadas.
Religião. Fé. Intermediações entre o abstrato e o real...player.
Interpretações. Correções. Ciência. Racionalização. Novos tempos.
Teorias. Pragmatismo. Evolucionismo. Positivismo. O nada coletivo. Etnocentrismo. E histórias fantasiosas sobre relações harmoniosas entre os desiguais nos lavrados de Roraima.
Projetos. Ambições. Preços. Cada um, um preço. De preferência em dólar ou em euro. Melhor proposta. Melhor negócio. Aplausos. Coletivas. Um ébrio na noite aplaudido pelas baratas.
E Boa Vista continua quente. Até nas madrugadas.

sexta-feira, outubro 15, 2004

Conversas possíveis

Para e inspirado em Orib Ziedson.


- Oi! Tudo bem? Passei alguns meses fora da cidade. Sentiu saudades de mim?
- Não.

................

- Fulana não gosta de ti. Diz que tu és muito arrogante e grosseiro.
- E eu com isso? Dependo dela por acaso?

......................

- E aí, como vão as coisas?
- Quer saber por quê? Tens alguma coisa a ver?


quarta-feira, outubro 13, 2004

(Para melhor compreensão, a gerência recomenda ler antes o post do dia 22 de setembro)


Me dê uma cerveja. Hum, muito bom matar a sede nesse calor, né? O senhor é o dono do bar? Bonito estabelecimento. Por acaso o senhor conversou com um rapaz parecido com o desta foto nos últimos dias? Quem sou eu? Eu trabalho para a família desse rapaz. Eles querem saber onde ele está metido. Afinal, há anos que não se tem notícias dele.
O senhor viu? Sim, claro, na foto ele está bem mais novo. Não, se ele falou que mantém contato periódico com a mãe, mentiu. A última vez que a pobre senhora ficou sabendo dele foi há uns oito anos.
Como eu cheguei aqui se ninguém sabe dele há tanto tempo? Ora, eu sou uma detetive muito bem treinada, filiada à Central Única Federal dos Detetives do Brasil - Ltda há vários anos. Venho na cola dele há umas vinte cidades. Já topei com ex-mulheres dele, com ex-patrões, com amigos. Todos têm uma história interessante para contar. Qual é a do senhor?
Como assim o senhor não revela as conversas com outros fregueses? O senhor é padre, por acaso? Desculpe, não quis ofendê-lo. Mas deixa eu adivinhar o que ele falou. Contou que largou os estudos, juntou um dinheirinho e foi rodar o mundo? Que já fez todo tipo de serviço para conseguir o dinheiro da próxima passagem? Certo, certo. Ele só não falou que é herdeiro de uma das maiores fortunas da América Latina, né? Nem tampouco que é considerado um gênio em física quântica pelos maiores doutores de vários países? Ele comentou que conseguiu o doutorado com menos de vinte anos de idade?
É, o homem é tudo isso. E um pouco louco, é claro. Largar os luxos da família para conhecer o mundo da maneira mais dura possível é coisa de quem estudou muito e ficou maluco.
Ele comentou para onde ia? Litoral? Estranho. Pelo jeito dele viajar nos últimos anos, água não deveria ser o próximo destino. Sim, eu tenho um banco de dados,com todas as informações cruzadas. Sei o que gosta de comer e de beber, tenho a média de permanência em cada lugar e...Como? No máximo, sete meses por cidade. Mas é o suficiente para arranjar confusões ou ser amado por todos. Ele é simpático, pelo que me disseram. Bonito eu sei que ele é.
Vai ser um prazer encontrá-lo. Mas me conte mais sobre a conversa que tiveram. Ele falou em algum livro também? Parece que vem com essa idéia há alguns anos. O engraçado é ele reclamar da falta de dinheiro para viabilizar a produção. Como assim o senhor não vai comentar nada? Tá bem, tá bem. Se eu pagar uma rodada para todo o bar, o senhor me diz pelo menos o nome da cidade para onde ele foi?

segunda-feira, outubro 11, 2004

12 de outubro.
Enquanto no Brasil, as atenções estão voltadas para as missas em homenagem a Nossa Senhora de Aparecida e para a entrega de presentes às crianças, a América espanhola rememora a chegada oficial dos espanhóis ao continente.
Foi em 1492 que as embarcações de Cristóvão Colombo atracaram na ilha denominada Guanahaní, rebatizada de San Salvador e atualmente ilha de Watling.
Como fariam os portugueses oito anos depois, quando "descobriram" o que hoje chamamos de Brasil, Colombo decretou a ilha como propriedade de um reino além-mar sem consultar seus habitantes, que olhavam admirados o brasão e a cruz, símbolos de seus novos governantes e de sua nova religião.
O resto da história, pelo menos em parte, todo mundo conhece.
Para ilustrar melhor o começo de tudo, uma canção do guatemalteco Ricardo Arjona, do disco Galeria Caribe:

Carabelas

Carabelas cargadas de malos presagios
emisarios de la trampa y de la colonización
tocan tierra provocando un gran naufrágio
cargados de demonios y una nueva religión
pisaron tierra de Guanahaní
bienvenida la desolación.

Esos sueños de estafa y de saqueo
ese gusto por el oro y esas ansias de poder
es el cáncer que aún enferma al heredero
es la historia de una tierra condenada a padecer.

Pero el negro, el indio y el español
se mezclaron para darle un gusto a Dios.

Pero el negro, el indio y el español
se mezclaron para darle un gusto a Dios.


quinta-feira, outubro 07, 2004

Cenas de bar

Duas da manhã. Éramos quatro, bebendo e ouvindo uma banda tocar velhos clássicos do rock. O balcão estava sujo. Na hora não percebi isso. Mas no dia seguinte, as provas estavam na manga comprida na camisa.
Nos intervalos entre uma música e outra, o burburinho predominava. E o cheiro de fumaça de cigarro industrial e de outros tipos tomava conta do ar. Estava quente. O calor só diminuía a cada cerveja. A necessidade de refrescar-se fazia que todos se aproximassem do nosso pedaço de balcão, congestionando o espaço.
Ele estava perigosa e estrategicamente bem posicionado entre o caixa e os garçons. Com a direita pegava a bebida e com a esquerda pagava. Quando saia do lugar, alguém ficava de guarda. Sempre o mais animado, estranhamente naquela noite era dono de uma calma que poderia ser chamada de melancólica ou perigosa.
Entre nós, as apostas sobre as coisas de sempre subiam. Mulheres para conquistar, garrafas a serem esvaziadas, o corpo da bailarina mais atraente.
E ele, quieto, apenas observando o movimento.
De repente, ela se aproximou do balcão. Vestido curto preto molhado de suor, cabelo longo e castanho, bonita. Cumprimentaram-se. Pareciam velhos amigos. As apostas agora haviam duplicado. Pelo estado de ânimo dele, joguei tudo no lance da conversa não durar mais uma canção.
Conversaram um de frente para o outro por três minutos, o tempo de um velho blues. Ele ainda aparentando distância. Eu, próximo de ganhar a aposta.
No intervalo, ela sussurrou uma frase no ouvido dele e sorriu. Ele respondeu, sorrindo também. Consegui ouvir ele dizendo "não me faz pensar bobagens. Há dias em que o coração de um homem está mais vulnerável que em outros e a cabeça e o corpo não se entendem."
Trocaram olhares e duas novas frases, afastaram-se do balcão, deixaram o bar e eu perdi a aposta.

quarta-feira, outubro 06, 2004

Divagações sobre o existir

Existem sentimentos que são um embaraço de pernas, um emaranhado de cabelos, de dedos e toques, olhos e corpos...Porque há sentimentos que se confundem com o nosso próprio eu.

Érica Figueiredo, jornalista e mãe de Bia, afilhada querida.


Quando nos distanciamos de nós mesmos, devemos voltar às nossas origens, porque lá pode estar a resposta que precisamos para o nosso próprio reencontro.

Professor Roberto Ramos, doutor em Ciência Política e reitor da UFRR.

quinta-feira, setembro 30, 2004

Ele disse:
- O corpo é o verbo da alma.
Ela respondeu:
- Conjuga-me, então.
Pronomes, substantivos, adjetivos e onomatopéias misturaram-se sem regras gramaticais a noite inteira.

segunda-feira, setembro 27, 2004

"Setembro

Setembro chegou e o pouco de felicidade que eu guardava se foi em uma mala e uns sapatos na mão."

O Vandré não explicou se foi largado ou não pela namorada ou se é apenas um comentário aleatório sobre a vida.
O fato é que o post no seu blog me lembra que setembro é um péssimo mês para manter a felicidade, seja qual for a área ou motivo.
É claro que sempre há os do contra, lembrando que grandes amores e conquistas profissionais foram obtidas nesta época do ano. Esperar mais o quê dos otimistas?
Para justificar minha aversão a todo setembro, confirmada ano após ano (é quando geralmente volto das férias - folgas no sul-sudeste do País), vamos a mais uma da etapa da auto-proclamada bem-sucedida série Escritos para mulheres especiais:

Primeiro de setembro

Hoje minhas paixões
Vão reencontrar-se
Com seu pares.
Continuarei só,
Perguntando aos passantes
Se viram a estrela brilhante
Do crepúsculo.
Hoje minha história
Perde mais uma personagem
Uma mais que abandona
O palco da minha vida,
Uma co-protagonista
Do teatro mambembe
Praticado por mim.
Hoje estou um pouco
Mais triste,
Um muito mais eu.


sexta-feira, setembro 24, 2004

Era dona de uma racionalidade infeliz e fatal como um beijo de despedida no início do dia e detestava minha abstração. Rumou para o sul e eu fiquei aqui.

quarta-feira, setembro 22, 2004

Pois é, meu senhor. As coisas não são como parecem. Basta a gente olhar de baixo para cima e tudo muda. É sério. Tem gente estudando isso. Esses doutores da universidade, esse povo que vive com a cara enfiada nos livros. Eu? Não. Eu nunca consegui passar na prova do vestibular. Depois perdi a vontade de estudar. O que fiz? Ah, eu era jovem, tinha umas economias, não gostava da minha cidade e decidi sair pelo mundo.
Passei uns quinze anos viajando por uns três continentes. Sabe aquele filme que passou um dia desses no cinema, aquele do livro, caderno, diário da moto? Então. Não tem aquela parte do deserto que os caras vão caminhando? Eu trabalhei ali pertinho uns cinco meses.
Como, o senhor só assiste jogo de futebol? Ah, mas eu também adoro. Todo domingo vou para um bar ou lanchonete qualquer para ver o campeonato brasileiro. Já foi melhor, sabe? Na Itália eu...sim eu já estive na Itália. Faz muito tempo. Quase que peço a cidadania de lá. Mas briguei com o dono da pizzaria onde trabalhava, quebrei a cara dele e tive de sair fugido do país. Os policiais devem estar me procurando até hoje.
Mas como ia lhe contando...Sim, claro, pode servir mais uma cerveja. Sim, sei que o senhor não tem como ficar só me ouvindo sem vender nada. Me diga, o movimento por aqui é bom? Ah, depende do pagamento do governo para agitar as coisas. Nossa, parece coisa de cidade pequena do interior. Desculpe, não queria ofender o senhor nem a sua cidade. Que legal. O senhor nasceu e se criou aqui, assim como os seus filhos? Poxa, eu não tenho filhos. E da minha família faz uns 18 anos que perdi o contato. De vez em quando ligo para minha mãe para avisar que estou vivo. É verdade. Mãe é uma das melhores coisas do mundo. Bem, não me casei por não encontrar nenhuma mulher que tivesse coragem de me acompanhar nas minhas viagens. Sim, amiguei várias vezes. Teve a Luisa, que era dona de um bar como o senhor. A Matilde era artista, fazia caixinhas de papelão colorido e vendia nas praças. A Joana era professora e escritora. A conheci num coquetel de lançamento de um livro. Tava lá só para filar comida quando começamos a falar sobre música da América Central. Mas eu gostei mesmo foi da Fernanda, balconista de uma farmácia. Adorávamos brincar de doutora e doente.
Mas sabe como é. Tudo se acaba na vida, a estrada chama de novo e a gente tem que seguir os instintos. Acho que eu nasci caminhando, sabe? O que faço aqui? Não, só parei por conta do ônibus. Parece que quebrou uma peça e vamos ficar aqui esta noite. Amanha sigo rumo ao litoral. Dizem que a temporada de pesca tá rendendo um bom dinheiro para quem tem as manhas das redes. É, também fui pescador quando estive no África. Já fiz de tudo na vida para ganhar o dinheiro da passagem do próximo trecho.
Nossa, tá tarde, né? Vou descansar agora naquela pousada da esquina. Não preciso pagar nada? Muito obrigado, senhor. Vou lhe contar mais uma coisa. Quando se chega na minha idade, a gente começa a repensar a história da nossa vida. E eu estou querendo escrever um livro sobre tudo o que vivi. O que o senhor acha?



segunda-feira, setembro 20, 2004

Foi a primeira que viu seu espaço visitado por ela. O que fazia lá, não trabalhava em outro setor da empresa onde raramente havia tempo para visitas sociais? A empresa até que tentava, mas o departamento de Recursos Humanos não era comandado por pessoas capazes o suficiente para implementar uma boa política da excelente vizinhança.
Apertos de mãos, como vai você, como vai o trabalho, nossa que projeto legal, como estamos cansados, vai piorar e outras frases de efeito foram ditas e repetidas. E o diretor do RH ali, supervisionando o intercâmbio entre os setores.
Venha conhecer minha mesa, olha que lindo o meu mouse, pois é não tenho vista para o horizonte, que bacana o teu ar-condicionado, faz um mal para a gripe que você nem imagina, dizia a visita, respondia o visitado.
Pois é vou embora, mas agora que ia te mostrar meu arquivo de piadas, volte sempre que puder, apareça também, falaram os dois, numa tentativa desesperada de retornar aos seus postos de trabalho e de sair do campo de visão da chefia.
E o diretor do RH, ali, explodindo de felicidade com o sucesso de sua política de integração entre os funcionários.

sexta-feira, setembro 17, 2004

Agora que o frio roraimense começa a deslocar-se para outros lugares, nada como uma opinião sobre ele. De Zanny Adairalba, escondida poeta do cotidiano:

Dias frios... cama quentinha, lençóis limpinhos, meia nos pés... (Um computador em algum canto da casa esperando ser usado. Alguém enrolado num cobertor e com uma xícara de chocolate quente à mão, pronto a expor os pensamentos a serem tatuados no universo...) Lápis, papel... letras... frases... histórias...
É... dias frios são deliciosos!!




quarta-feira, setembro 15, 2004

As questões do mundo

Todos os seres humanos cobram, querem ou pedem algo de quem os rodeia. Isso é da sua natureza. Agiotas sempre querem mais juros dos credores. Mães exigem dos filhos boas notas no colégio. Filhos querem ser os preferidos dos pais. O governo não se cansa de cobrar e criar impostos. Países pobres imploram o tempo inteiro por ajuda. Líderes, mesmo que não diretamente, querem ser seguidos. Religiosos, fé. Novos amantes, que se abandonem os antigos. Homens e mulheres, fidelidade de seus parceiros. Já alguns filhos de pais separados conformam-se com o pagamento das consultas do analista. Professores, mesmo que nunca demonstrem, cobram atenção. Sobrinhos pedem presentes. Velhos amantes desejam a permanência do outro no leito. Prostitutas se conformam com um rápido gozo do freguês. Garçons, indelicados como só eles, pedem apenas uma gorjeta e os 10% da conta.
Sogros são mais moderados. Exigem apenas o impossível dos genros e noras. Artistas reclamam se não há palmas no final do espetáculo. Ambientalistas cobram respeito ao meio ambiente. Estudantes são despretensiosos e conformam-se em ser aprovados. Políticos exigem ser votados e reeleitos.
Melhores amigos querem compreensão e aceitação. Os traidores, que nunca sejam descobertos ou julgados. Vendedores cobram de São Pedro que sempre faça sol e nunca chova. Chefes exigem apenas lealdade e sacrifício. Grevistas, aumento salarial. Certas empresas, a concordância com a semi-escravização. Governadores pedem, vez ou outra, trégua à oposição. Caloteiros, não ser enganados. Cineastas pedem aos céus salas de cinema cheias e críticas favoráveis. Oradores, o dom de nunca engasgar.
Deus, até ele, cobra dos seus filhos exclusividade na preferência. Solitários sentem-se felizes quando o mundo lhes dá paz. Já os ninfomaníacos são menos exigentes. Muito sexo, com todo mundo, lhes basta. Esposas e namoradas insatisfeitas cobram orgasmos múltiplos. Mulheres sempre pedem ser tratadas com igualdade e receber salários iguais aos dos homens. Estes, por sua vez, querem dividir a conta do jantar e do cinema. Motoristas querem mais agilidade do governo para resolver o problema dos engarrafamentos. O governo só quer ser esquecido. Animadores de auditório querem ser assistidos. Pregadores, ouvidos. Escritores, inspiração.

segunda-feira, setembro 13, 2004

Meio-dia e meia

No restaurante, Aurélio come apressadamente. Tem de voltar à empresa para acelerar a entrega de um relatório de atividades e começar a escrever um projeto. Entre uma garfada e outra, pensa nas paisagens que viu numa revista de viagens. Como ele gostaria fazer os passeios que os jornalistas descrevem. Mas Aurélio não tem dinheiro suficiente para viajar. Além disso, a pensão das duas filhas leva boa parte de seu salário. Sua única opção de lazer fora da rota casa-trabalho é a banca de revistas do tio, que o deixa folhear as novas edições.
A um quilômetro, Fátima prepara-se para sair dos braços do namorado. Quase esquecia do almoço de família marcado para hoje. Se não bastasse estar um pouco atrasada, nunca aprendeu a maquiar-se em motéis. Para ela, as luzes nunca estão bem posicionadas. Certa vez perguntou a um empreiteiro se iluminação era item menor nestes projetos. Depois do último beijo, sai do quarto e vai para o restaurante. Pelo celular, avisa ao marido que está chegando e culpa o trânsito pelo atraso.
No banco de uma praça, Nina e Mateus terminam as anotações do diário de viagem. Já são 15 estados visitados desde que caíram na estrada. Ainda têm duas semanas para viajar. Calculam que dará tempo para chegar na estréia do grupo teatral dos amigos. A viagem os ajudou a ficar mais próximos, acreditam. As anotações serão fundamentais na redação de vários artigos para o jornal de sua cidade natal e, quem sabe, de um livro. Agora, porém, é hora de comer, não de sonhar.
Na calçada do restaurante, Aurélio espera o carro que vai levá-lo para o trabalho quando vê Fátima chegar. "Essa aí deve ter tudo o que quer, sem precisar preocupar-se com horários. Que inveja", pensa.
Fátima passa sem notá-lo, questionando-se se vale a pena ficar sem tempo para si, ocupada com o marido, a casa, o namorado e a gerência da loja de roupas. "Acho que chegou a hora de pensar em mim. Vou fazer como esses garotos, que não têm tanta responsabilidade e são felizes".
Nina e Mateus, parados em frente ao restaurante, contam o dinheiro para saber se poderão almoçar hoje. Dá para encarar o preço. Vamos almoçar, decidem.
Enquanto isso, novas histórias procuram o seu espaço nas mesas do restaurante.

sexta-feira, setembro 10, 2004

quarta-feira, setembro 08, 2004

A debutante

A Universidade Federal de Roraima comemora 15 anos nesta semana. Lá se vão oito anos desde que entrei pela primeira vez numa sala do Campus do Paricarana para estudar Jornalismo.
Mas o primeiro contato com a UFRR foi mesmo em 1993, quando fui professor, por algumas semanas, de um projeto de alfabetização de adultos desenvolvido pela instituição. Nunca ficou bem claro se tinha direito a receber algum trocado. Na dúvida, deixei de lado.
Depois de formado, fui professor durante um semestre, lecionando três disciplinas. Na sala, antigos colegas e uma pirralhada hoje quase toda graduada.
Para manter a mente na ativa enquanto não penso num projeto legal de pós, voltei à UFRR como aluno de Sociologia. (estou no aguardo de uma lei que me permita ser presidente da república. Afinal, se o FHC pôde, eu também quero. Pelo menos de sindicato).
Na universidade, ganhei amigos, conquistei desafetos, tive amores de todos os tipos, fiz política estudantil, ajudei a fazer protestos e organizar eventos culturais. Também percebi um misto de vergonha e senso de justiça nos olhos dos alunos e professores quando o Governo Federal enviou interventores para assumir o lugar de reitores suspeitos de cometer irregularidades ou quando vestibulares foram cancelados por confirmação de fraude.
Participei de duas eleições para a escolha de reitor; de algumas dezenas de assembléias discentes e docentes; de greves e paralisações. Tive aula com professores bons e medíocres, fui colega de gente aplicada e relaxada, entendi muito sobre a arte de ouvir para aprender.
Graças à universidade, tenho uma profissão (Deus sabe o que seria ou onde estaria hoje sem ela) e me sustento honestamente.
Graças à universidade, compreendo parte do mundo que me rodeia e percebo a dialética como um processo interno que deságua na modificação da realidade.
Em resumo, fiz amor e fiz a guerra na universidade. E se o tempo voltasse, faria tudo de novo, fazendo a balança pender um pouco mais para o amor, claro, que é mais gostoso.

sexta-feira, setembro 03, 2004

Atendendo a pedidos, mais uma da série "Escritos para mulheres especiais."

Perguntas no mar


A manhã surge no convés do navio e
A mesma pergunta de todos os dias é refeita:
Que estranho som é este que nos persegue e enfeitiça,
Que nos prende e libera a seu gosto, canto de sereia invisível?
As ondas, nas quais deslizam barcos aventureiros,
Balançam indiferentes ao nosso esforço e suor.
Somos corsários, piratas, descobridores.
Somos caçadores na terra prometida, habitamos o além-mar.
Navegamos em águas profundas, tememos apenas o horizonte,
Lá onde o oceano termina, lá na casa dos deuses.

O sol ergue-se soberano, acorda os ventos, clareia o céu,
As velas se agitam e nenhum pássaro pousa nos mastros.
Teremos um dia sem tormentas, sem surpresas,
Bem longe de um porto seguro, sem gaivotas para espantar.

O dia termina para novamente a lua reinar suprema
E, de novo, ninguém descobre que canto é este,
Que domina marinheiros sem pátria ou razão
E os impulsiona a conquistar reinos abissais
Respirando com dificuldade e fazendo-os perguntar-se:
Que águas são estas que escorrem pelas nossas mãos?
Que sete mares são estes, agitados e pacíficos,
Neste sul e norte afastados por um ponto cardeal qualquer?


quarta-feira, setembro 01, 2004

Conversas de rua


Rita - E aí, Betânia, tudo bem?
Betânia - Tudo bem o quê, sua traíra?
Rita - Ih, que foi? Que trairagem tu acha que fiz contigo?
Betânia - Tu trairou legal comigo que tô sabendo.
Rita - Fala logo aí.
Betânia - Tô sabendo que tu deu uns pegas no Marcelo.
Rita - Aí, dei mesmo. Qualé então, tu não tem namorado?
Betânia - Tenho, mas tu sabe que o Marcelo é meu marmita. Sacanagem da tua parte.
Rita - Putz, tinha esquecido disso. Quer dizer que tu ainda dá uns pegas nele também?
Betânia - De vez em quando, só pra relaxar.
Rita - Ô, amiga, desculpa. Juro que não faço mais isso.
Betânia - Jura mesmo? Tem que respeitar a carne que os outros comem, pô!
Rita - Juro que sim, amiga.
Betânia - Então tá perdoada. Ei, tu já viu aquele gatinho parado ali perto do poste?
Rita - Mô lindão, né? E aí, vamu dá um chega nele?
Betânia - Só ser for agora!

segunda-feira, agosto 30, 2004

Juliana, a rainha da folia

Como é feito todos os anos, o prefeito da emergente cidade de Santa Rita dos Aparecidos, reeleito e feliz, planeja um carnaval que traga muitas divisas para o município, levantando as economias dos empresários e alegrando os foliões, que esquecem de todas as dívidas, provações, incompetências, filhos, esposas e maridos durante alguns bons e mundanos dias. A primeira providência é escolher um rei e uma rainha. Afinal, assim reza a tradição: um gordo alegre e uma morena faceira e com samba no pé devem receber a chave da cidade.
Nas escolas de samba, agitação é palavra de ordem. Os presidentes encomendam aos olheiros que caprichem no serviço e lhes tragam a mais bela das sambistas, seja ela escolhida entre as meninas da própria escola, seja entre as freqüentadoras dos clubes de pagode. Na escola Avenida da Central, a procura é frenética, afinal está em jogo não apenas a honra conquistada por uma das suas componentes de reinar na folia, mas o bicampeonato carnavalesco.
Cinco morenas são examinadas ao som da bateria. Juliana, cabelos cacheados, lábios carnudos, pernas torneadas, sorriso fácil e cintura-de-mola é a escolhida. Tem pela frente um desafio, pois as outras escolas não deixaram por menos nas indicações.
No dia da escolha, muito nervosismo. Juliana arrebata o título de rainha sem muitos problemas. Samba com alegria e desperta a paixão de vários espectadores, que oscilam entre os galanteios rudes (gostosa, tu é a mulher que mamãe sonhou para mim), os mais ou menos (nossa, namora comigo e te dou minha vida) e os metidos a poeta (tua beleza me desnorteia, linda mulher que flutua enquanto dança).
Mas Juliana não dá bola a ninguém. Ela já tem o seu homem. Isso até descobrir que ele a estava traindo com a rainha da bateria. Aí, enraivecida, promete vingança no meio da folia. Sorte do irmão do rei Momo, um repórter fotográfico escalado pela organização para acompanhá-lhos em todas as festas. Haviam se conhecido durante a visita que todas as candidatas fizeram ao prefeito. Simpatizaram logo de cara. Na primeira noite de carnaval, fuga dupla para uma praia do rio Piná. Vinho, queijo, beijos... Assim correu o mundo até a quarta-feira de cinzas, quando as obrigações do malvado mundo real separaram os novos amantes e cada um voltou a seus respectivos amores. Do velho carnaval da reeleição, sobraram apenas lembranças, uma fotografia e silêncio sobre o romance. Mas eles, lá no fundo, esperam ansiosos pela micareta, onde velhas paixões costumam esquecer tudo durante mundanas horas.

(Publicado originalmente no carnaval de 2001, no extinto semanário A Tribuna do Estado de Roraima)

quinta-feira, agosto 26, 2004

Investigación de primer mundo

- ¡Manos p´árriba!
- Que pasó?
- ¡Manos p´arriba, péguense a la pared! ¡Documentos!
- Aquí están, pero que pasa, señor policía?
- De quien es aquel carro?
- Que carro?
- Aquel que está parao en la esquina.
- No sabemos.
- Como no sabem? No es de ustedes? Ustedes no estaban en la esquina?
- Si, pero ni lo habíamos visto.
- Dónde tu vives?
- En la Vuelta Del Diablo...
- Nunca te vi por aqui. Tu vives aquí mismo?
- Si.
- Y tu? Vives aquí también?
- Si.
- Bueno, súbanse los tres al carro ahora.
- Pero por qué?
- Coño, súbanse. ¡Los estoy mandando!
- Pero por qué?
- ¡Que te subas,chico!

(Os policiais apontam suas armas enquanto todos entram no camburão. Seis quadras depois, na delegacia, o comandante fala com eles)

- O sea, que ninguno de ustedes es el dueño del carro?
- No, señor, nosotros no tenemos carro.
- Y que hacían paraos en la esquina de la plaza?
- Hablando...
- Y qué, no trabajan?
- Somos estudiantes.
- Ah, OK, estudiantes.
- Y por qué nos trajeron?
- Es que un tipo amenazó de muerte a un señor y estaba vestio como ustedes, con una camisa azul, una gorra como la tuya y un blue jeans.
- Pero no somos nosotros, señor.
- Bueno, es que ustedes eran sospechosos. Y además, estaban paraos cerca del carro.

(entram vários policiais com um homem algemado)

- Lo cogimos, comandante. Lo encontramos cerca de la plaza.
- Bueno, muchachos, ahora que probamos que ustedes no amenazaron a nadie, pueden irse. Compórtense bien, OK? Y no se pongan así. Ustedes saben que ese es el trabajo de la policía. Váyanse tranquilos.

terça-feira, agosto 24, 2004

Um coral formado por120 crianças de 6 a 14 anos apresentando-se no parlatório da Universidade Federal de Roraima durante o V Painel Internacional de Regência Coral é algo comum, esperado até, tendo em vista o tipo de evento.
Mas o coral, bem afinado e levemente nervoso na que foi sua primeira apresentação, é especial. Para começar, apresenta suas músicas em dois idiomas. Os ensaios, apenas nos finais de semana, são feitos nas aldeias indígenas Tabalascada, Malacacheta e Canauanim, a mais de 20 quilômetros de asfalto, piçarra e muita lama ou poeira, de acordo com a época do ano, de Boa Vista.
Além disso, o regente do coral e seus alunos têm em comum algo mais do que o gosto pela música. Todos são wapixana, uma das etnias historicamente vítimas do que parte da sociedade roraimense costuma chamar de convivência harmoniosa entre índios e não-índios (Por convivência harmoniosa, entenda-se uma relação de subalternidade na qual a força do branco predomina).
Cristino Pereira dos Santos é o responsável pelo coral, nascido a partir de uma ação autônoma que ele chamou de Projeto Canto Indígena. Há seis meses, todos os sábados ele deixa Boa Vista para ir ao município do Cantá e ensinar música às crianças. O professor conta que a ansiedade de alguns alunos é tanta que vários começam a rondar o salão de aula uma hora antes das lições começarem, às 8h.
Os frutos começam a ser colhidos. Na estréia, o coral apresentou canções próprias e cantos tradicionais na língua materna e em português. Vestidos com saias de palha, com acompanhamento de um violão e de um violino, o coral já tem sua solista, uma chimeba (menina) que se apresentou apenas com a palha de buriti e tinta de urucum cobrindo seu corpo.
A cantoria em língua nativa, além da preservação de sua cultura, representa um trabalho de valorização da auto-estima dos indígenas. Quando algumas famílias migram para as áreas urbanas, os mais novos costumam negligenciar a herança que carregam em troca de uma integração mais rápida com a nova sociedade da qual fazem parte.
Até o final de ano, conta Cristino, o projeto deve ampliar seu alcance, consolidando o coral, um grupo de violonistas e um grupo de composição musical. Tudo isso tendo como única ajuda oficial 20 litros de gasolina mensais doados pela Funai (Fundação Nacional do Índio).
Segundo o professor, seu trabalho é motivado por ter consciência que "a cultura muda a mentalidade das pessoas e que o governo não dá isso porque assim consegue controlar a gente". Uma platéia formada em parte pelos filhos da própria sociedade que ignora as necessidades dos indígenas, em parte por pessoas sensíveis à causa destes povos, além dos pais das crianças e alunos do louvável projeto de licenciatura Insikiram, mantido pela UFRR, aplaudiu a disposição do professor e seus alunos em demonstrar que 500 anos de sofrimento e exclusão é um tempo insuficiente para acabar com o orgulho de ser índio.